1 de maio de 2017

Bjos de luz, filhas de Frida Kahlo!

É possível ser feminista e cristã ao mesmo tempo? O que leva um discurso evangélico a criar uma associação entre o Demônio, o feminismo e Frida Kahlo? Tentamos refletir sobre o tema, mesmo depois do "trauma" de ter ouvido ontem que quem fez o mestrado em Comunicação não sabe o que é ter feito um mestrado...


Arte: Karla Vidal


Não gosto de analisar o discurso dos outros porque, ao se fazer isso, corre-se o risco de tratar o discurso como sendo o próprio indivíduo, o que não procede porque não há signo ou discurso que consiga dar conta plenamente nem das coisas, nem dos acontecimentos, nem das pessoas.

Nesta perspectiva, a narração é uma tentativa mais ou menos bem-sucedida de correr atrás do tempo perdido e a descrição reflete nosso esforço de passar uma borracha em cima da infidelidade de nossas memórias.

Mas, esse preâmbulo é só pra dar um verniz científico na seguinte frase: “Não dá pra reduzir uma pessoa ao que ela fala ou escreve”.

Outra coisa chata de quem se mete a analisar o outro por meio do discurso dele é a tentação de resumir a análise a comparações com outros discursos e outras pessoas. Nas redes sociais, a exemplo do Facebook, isso já se tornou praticamente uma regra de etiqueta (falta de).

Os facebookianos vão longe em suas comparações, construindo verdadeiras genealogias que trazem numa ponta a pessoa que proferiu um determinado discurso e no início da genealogia figuras míticas ou de cunho religioso, incluindo Deus e o Satanás.

Um exemplo interessante do que estou dizendo é um diálogo, do qual reproduzirei trechos, extraído de um grupo de discussão de uma igreja evangélica. O diálogo é gerado em torno da possibilidade de mulheres assumirem o papel de pastoras nas Igrejas.

Uma das personagens do diálogo (Karla) apoia o pastorado feminino e começa a ser atacada por discordantes. Em um dado momento, uma das discordantes insere o alvo numa formação discursiva feminista, algo como:

- Feminista cristã?, pergunta a discordante sobre o pastorado feminino.
-Sim, com total equivalência, responde Karla .

A partir daí, os discordantes tentam construir a tese de que estabelecer uma relação entre os discursos feminista e cristão é um contrassenso e apelam para comparações:

- [Feminista cristã] É tipo judeu nazista ou negro racista.

Depois disso, começa a ser desfiado um rosário de insultos, mencionando que uma mulher que se denomina feminista cristã nunca abriu uma bíblia na vida e deve se arrepender de seus pecados e entregar todo o coração a Cristo.

Porém, o trecho mais interessante do diálogo é o seguinte:



O personagem Gabriel, com base na ideia de que existe uma equivalência entre pessoa e discurso, erige uma Formação Discursiva ilustrada pela ideia que ele possui a respeito de Frida Kahlo e insere Frida numa genealogia à qual pertencem as feministas, que ele considera um mal a ser combatido. 

Mesmo que não tenha sido intenção dele, sua estratégia discursivo-genealógica nos leva a supor que a árvore genealógica de Frida Kahlo e, portanto, das feministas, tem como ancestrais versões da mulher associadas ao Mal e, em última instância, ao pecado e ao demônio.

Essa estratégia discursiva, tão comum atualmente nas redes sociais, esforça-se por apagar a história das pessoas, seus sofrimentos, contradições, mas também prodígios e resplendor, reduzindo-as a um bloco discursivo que, muitas vezes, não tem sequer relação com o que estas pessoas viveram.

E, quando se anula a existência de uma pessoa, projetando-se nela formações discursivas, no mais das vezes cristalizadas e irrefletidas, abre-se caminho para a intolerância e a exclusão.

Os discursos de ódio, nas redes sociais, vêm dessa tentativa de converter a  riqueza da complexidade e da contradição humanas em avatares esculpidos a partir de retalhos de preconcepções selvagens.



Esta postagem foi escrita em homenagem ao aniversário de Ana Carolina Morais, que discorda de mim há décadas, ajudando-nos a manter uma amizade sólida como são as águas vivas do Espírito.

Também homenageia Karla Sabryna, feminista, cristã  e Karla Vidal, ambas filhas de Frida Kahlo.


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