22 de maio de 2017

Coisas e palavras que (não) são de amigos

Borboletário
Rogerio Cavalheiro/Futura Press/Folhapress


PS.: Conversando com uma amiga, ela me disse que pessoas que tinham a vida organizada não viveriam grandes amores porque não se pode ter tudo...

Como vidente, ela é uma excelente fotógrafa...

Outro dia, meu grande amor (amigo), depois de anos ouvindo minha poesia ao pé do zap, perguntou quando eu ia desistir de dizer coisas que não são de amigos como "Eu te amo"...
فارسی

Coisas que são ou não são de amigos variam histórica e geograficamente

Entre os persas, amigos se beijam no rosto e andam de mãos dadas

Na Antártica, amigos dormem abraçados pra gerar calor humano
E enfrentar o zero absoluto

Na Israel salomônica, amigo, irmão e amado eram sinônimos
Não fazia mal amigos se acharem lindos do início até o recomeço
Dizer Eu te amo era uma forma de fazer as pazes
Entre o Adeus e o Até logo
Entre as reticências e o ponto final

Em B612, amigos ajudam o outro a virar rosas e depois os colocam dentro de redomas

E, no planeta-poesia, a amizade-amor é indomável, instavelmente equilibrada, porém harmônica, inafeita a batalhas

Em qualquer lugar ou tempo, amigos, de quando em quando, mentem um pro outro
Porque às vezes é dita tanta verdade que nem a nudez consegue nos vestir

Mas, só com um brasileiro tive vontade de fazer amizade, amor e sexo também
Embora tenha lhe dito o inexato contrário

Espero que ele revogue a medida provisória onde finge decretar
Que eu devo desistir pra sempre

Só ele topou ficar segurando minha mão enquanto via coisas onde elas não existiam
E imaginava coisas que nunca iriam acontecer


Não sei mais dizer se isso é coisa de amigo, amante ou poeta

[Esse texto tem 1% de chance de acertar o alvo. Tomara que ele não esteja usando filtro solar]


PS.:

No princípio, os poemas eram pra alguém, assinados por pseudônimos
Em seguida, continuaram assinados por pseudônimos e eram pra ninguém em especial
Só depois de 2015, a poesia foi pra você assinada por mim.
Talvez isso tenha algum significado, meu amigo (amor).

16 de maio de 2017

Canção do retorno


The Fisher King
Eddi van W. via Visualhunt.com / CC BY-ND



Queria que a princesa Isabel assinasse a Lei Áurea pra o meu ventre
Queria ter escrito o Cântico dos Cânticos pra quem amo
[Mas não seria justo com o rei Salomão]
E que ele pudesse achá-lo entre as mechas de seus cabelos
Que acendem meu tato
Assim como o rosto dele acende meu olhar
A sua presença minha alma
E a sua distância mantém aceso meu sétimo sentido
Minha esperança
Chamada de teimosia nas horas vagas

Você vai retornar
E a canção de retorno vai ser uma música
Tocada na clave de sol
E, se você quiser, os intervalos dela
Serão acompanhados pela notas de minhas visitas

Me ajuda a ter motivo pra continuar acendendo minha poesia

Hegel estava certo:
A poesia assim como o amor é inexprimível
E o poema, bem como as palavras,
São acidentes de percurso,
Tentativas desastradas de captar as pegadas do indizível

Eu sempre te amei, vida
Te conhecer foi a ressurreição que faltava
Estou mais do que feliz com tua felicidade
Embora o fato de ela significar tua decolagem
Dá um frio no meu ventre preso

Não foi Platão quem disse que você me ama
Você é o primeiro que disse que me amava
Com os silêncios, as pausas e as hesitações
Mas, o que seria da música e do amor sem elas?

Não quero perder isso de jeito nenhum
Vlw por tudo
Vlw tudo

Vem comigo pra que eu não sofra
Vou contigo pra você não chorar
O amor real: se Platão o conhecesse,
A história da Filosofia seria outra

Você atirou uma flecha na maçã que estava na minha cabeça
E, desde então, meu zap toca uma música exclusiva pra ti
Seja pato ou labrador, você é um ser humano lindo
Meu aperto de mão mais beijo
Meu beijo mais abraço
Meu abraço mais sexo
Meu sexo mais plenitude
São teus

Sou teu brother in arms
Mas quero ser também teu lover in arms
Cada vez que nos casarmos, tocará aquela música de saxofone que você gosta
E eu tb

Não sei me despedir
Tampouco terminar este poema

Vou te imitar e deixar uma ...

Por que o discurso de Diogo Mainardi escolheu mandar Reinaldo Azevedo ir dar a bunda?

Fonte da imagem: Jornal O Tempo


O jornalista Diogo Mainardi fechou um debate de ideias com o jornalista Reinaldo Azevedo, sobre a conversa entre o ex-presidente Lula e o juiz Sérgio Moro, com o imperativo: #VaiDarABundaReinaldo.

Por que o imperativo “Vai dar a bunda” é considerado algo de tanta a força a ponto de ser eleito “chave-de-ouro” de um debate?

Num contexto em que os arquétipos masculino e feminino estão se reescrevendo, a resistência conservadora se expressa por meio de discursos de poder ancorados num dos conjuntos de imagens mais recorrente ao longo da história: a imagem do passivo que é aniquilado pelo ativo.

Esse repertório imagético atualiza, na forma “dócil” da contemporaneidade, as torturas baseadas no retrato do coito como destruição do aparelho genital de quem ocupa a posição passiva na relação sexual.

Isso fica mais claro quando pensamos no grande número de situações negativas traduzidas por expressões como: “Tomou no cu”, “Está fudido” e “Arrombou-se”. Expressões como estas continuam sendo utilizadas como senha desesperada para definir os redutos onde “homens” e “mulheres” devem circular.

E assim, as mulheres, por mais bem-sucedidas que possam ser em diferentes campos, não serão bem-sucedidas se “lhes faltar levar rola”. De forma semelhante, um homem que faz sexo com outro é considerado homem nas horas úteis de trabalho, desde que traga lucro ao empreendimento. Mas, nos bastidores, é despido de sua hombridade e convertido na figura de “arrombado”.

Aliás, num contexto em que as posições sociais não conseguem mais ser orientadas pelas posições ocupadas na cama, resta ao machismo (seja ele masculino ou feminino, hetero ou homossexual) maquinar a subjugação do “passivo” nos bastidores, por meio das entrelinhas do discurso, das indiretas pontiagudas, aludindo à dolorida retomada de uma história em grande parte baseada em relações de estupro do corpo e da alma.

No artigo Os dispositivos de poder e o corpo em Vigiar e Punir, publicado no número 3 da Revista Aulas (2006/2007), a filósofa Saly da Silva Wellausen  reflete, como denuncia o título do texto, sobre a noção de poder na “obra” de Michel Foucault.

Em um dado momento, Saly sintetiza a relação entre poder e subjugação do passivo: “o poder instala-se na horizontalidade do sujeito individualizado, modelando seu corpo até a passividade”.

No contexto atual, percebe-se um tipo de oscilação entre o que Foucault chama de poder-saber, exercido por meio das técnicas e discursos, e a utilização da violência pura e simples: o poder que para se impor aniquila sua própria “natureza”: a estratégia.

É o caso do linchamento, o terrorismo e outras formas de aniquilação onde a recorrência ao efeito-surpresa eleva à mais alta potência  a afirmação de Foucault, parafraseada pela filósofa: “o poder produz o real antes de reprimir, o verdadeiro antes de ideologizar, abstrair”.

Contudo, o poder-saber segue firme em seu impulso geográfico de mapear os espaços onde as pessoas podem existir e as formas de existir. Essa definição é feita por meio da mobilização de discursos para definir qual o “quadrado” de cada um e se esse quadrado é ou não arrombado.

Uma vez no programa Os Pingos nos ii, de Reinaldo Azevedo, na rádio Jovem Pan, ele tocou um trecho da música Coração Ateu, composta por Sueli Costa, e cantada por Maria Bethânia. E falou que a matéria-prima da reflexão é por excelência o amor. Refletir sobre política é a falta de alternativa diante das mazelas sociais.

Fiquei pensando se ele não teria visitado este blog, tendo em vista que visitei o dele com um comentário (que ele apagou) e deixei lá o endereço do meu blog. #ProntoEspeculei.

12 de maio de 2017

Prece a Nossa Senhora dos Passos


Photo credit: isado via Visual hunt / CC BY-ND


Nossa Senhora dos Passos, te peço
Livra as asas do meu anjo dos tropeços,
Dos calos que não param de falar

Posso emprestar um pouco do meu colo pra ele
Enquanto a Senhora visita a hora do Ângelus?

Conta pra ele, Mãe, que o cinema nos espera
Que a estrada nos pede carona
E que os dilemas se tornam leves ao seu lado

Espero que a beleza do meu rosto caiba no seu olhar esta madrugada
E em outras nas quais ele pare de tentar me convencer
A desistir
O orvalho desistiria das folhas por medo do nascer do sol?

Quando não desisto de ti, a dor dói menos
Não desistir, ao contrário do que possa parecer
Me ajuda a não esquecer o  doce ponto
Em que rota e atalho fazem as pazes


Me deixa enxergar tuas pegadas roçando as minhas
No jardim dos descaminhos

11 de maio de 2017

Elvis Presley e o código de insegurança do cartão de descrédito


Elvis
Photo credit: Claudio Arriens via VisualHunt.com / CC BY-NC





Cartão de descrédito ou poesia secreta de Elvis Presley

Chamei pelo seu nome
E tive como resposta um olhar seco
Queixo arrebitado
Ao fundo, um instrumento frio, na clave de Far, exalava uma música hostil perguntando: “O que esse indivíduo acha que pode querer comigo?”

Se minha presença lhe é, de fato, indiferente, a piada fúnebre se repetiu
Se a indiferença é sua máscara de proteção, você finge bem
Porque faz minha esperança latejar de dor e cansaço

Você deve ter feito, enquanto dormia, um curso intensivo de sem-cerimonial
E aprendeu a me desconvidar para todos os feriados prolongados
Prolongando-me feridas

Vou tentar dormir hoje sem me sentir menos importante que o cartão de descrédito
Que você não possui ainda

Hoje seu agradecimento foi estéril, do hálito pra fora

Acompanhe a dançarina
E me deixe voltar sozinho escoltado pelo risco de assalto
Pelo pouco importe-se de desarmamento

Ensaie o ritmo inerte da norma morna,
Da conveniência enganaredentora

Eu te amo.

No fundo, o que eu tenho pra te oferecer?
Além do toque mais suave que a eletricidade já esculpiu
De um abraço mais acolhedor que o retorno ao jardim que teu sonho planta antes de dormir
Do prazer mais intenso que o segredo grafitou na muralha estelar?

Não se preocupe. O dobrar dos meus sinos não se chama deslealdade
Meu amor é puro e intenso o suficiente para trocar os alto-falantes
Pelo teu pé de ouvido
Em tempo: não cobro anuidade
Juros ou sequer Prometos

PS.: Seu machucado me preocupou.

10 de maio de 2017

Receita poética para o MasterChef


Photo credit: rtppt via Visualhunt.com / CC BY-NC-SA


Adicionei um mói de câmera lenta no acelerador da carruagem 
E descasquei os milésimos de segundo até cada um deles se tornar uma noite inteira
Na tua companhia

Polvilhei chuva no asfalto e hipnotizei as ruas
Até seus olhos semicerrarem
E o mundo inteiro se tornar bastidor de nossas carícias

Untei teus lábios com vinho
E pré-aqueci nosso abraço,
Assistindo de mãos dadas ao vento virar filme
E catar nossos segredos

Segurei a vela até ela abrir as asas
E acender nossa embarcação

Quando tomaste, finalmente, iniciativa
Foste fermento que fez meu coração crescer, 
Longe de qualquer corrupção

Meu carinho  confessou ser teu despertador
Capaz de te acordar pra dentro do meu sonho

Dormi nós dois enquanto a chuva imitava a voz do mar
A gosto

Adia o cais e o aeroporto
Não (des)embarque ainda
Não antes do teu abraço me contar
O segredo para abrir o cofre da liberdade

O calor do nosso encontro aguarda um fio de Aceite
Para completar a receita

Ensina meu plano de te beijar
A te pegar de surpresa
E meu cobertor a se tornar tua atmosfera e remanso

Nus, envolvendo-nos enquanto assistimos Netflix
Ou torcemos pelo retorno dos eliminados do MasterChef

7 de maio de 2017

...

Photo credit: Claudia Regina CC via Visualhunt / CC BY-SA



Aorta ou elogio ao inenarrável

Durante um quarto de hora a epifania contou nossa história
A eternidade trocou o dom de durar para sempre
Pela alegria de viajar a sós contigo durante 40 minutos-chuva

Meu sorriso mais libidinoso estava coberto de pureza
E eu querendo que você escrevesse, no meu corpo, uma versão apócrifa do Kamasutra

O mapa Múndi estremeceu de alegria no meu ventre
Quando os hemisférios de nossos lábios se tocaram

Devolve, amor, o outro hemisfério desse beijo
Pra que meu ser seja outra vez sol nascente
No leste,
No oeste,
No viste,
No ouviste
No calaste
Em todos os sentidos,
Em todas as pétalas da rosa-dos-ventos

A horta do meu coração
conheceu o jardineiro mais lindo e

Hoje, a profecia que errava no poema que ganhava um novo verso
Toda vez que alguém o lia
Cumpriu-se

Aquele velho poema fechou suas portas
Mudou-se para este lugar inenarrável
Onde o nome de quem amo coincide com sua presença
Abraçada à minha

Que bom que você esperou por meu segundo abraço
Antes de abrir a porta do carro,
Até o primeiro beijo de amor
Me visitar
[Seu lábios se deixaram roubar]

Foi tudo como sonhei
O antes, o depois
Fui o homem, a mulher, o homo, o hetero, o trans
O corno, a puta, o santo, o devasto
Que sempre sonhei
No instante exato

Todos dizendo Eu te amo
Doce, sem culpa, sem cobrança, sem pressa
Um tesão repleto de letras, ideogramas, braile, hieróglifos
E silêncios
E luz
Como na música que a rádio Recife mandou calar
Naquele instante

Desisti de te pedir em casamento
Prefiro te pedir em liberdade
Até que a sorte nos prepare
Para o que há de vir
Talvez
Por que não?

Não tenho medo, culpa, nem pressa
Estou pendurado no varal da existência
Um sol simples e leve me
Quarando
Minha alma Agrestina
Vê tua alma sertaneja tomando banho de chuva

E perdendo a conta de quantas doses de água ardente tomou

1 de maio de 2017

Bjos de luz, filhas de Frida Kahlo!

É possível ser feminista e cristã ao mesmo tempo? O que leva um discurso evangélico a criar uma associação entre o Demônio, o feminismo e Frida Kahlo? Tentamos refletir sobre o tema, mesmo depois do "trauma" de ter ouvido ontem que quem fez o mestrado em Comunicação não sabe o que é ter feito um mestrado...


Arte: Karla Vidal


Não gosto de analisar o discurso dos outros porque, ao se fazer isso, corre-se o risco de tratar o discurso como sendo o próprio indivíduo, o que não procede porque não há signo ou discurso que consiga dar conta plenamente nem das coisas, nem dos acontecimentos, nem das pessoas.

Nesta perspectiva, a narração é uma tentativa mais ou menos bem-sucedida de correr atrás do tempo perdido e a descrição reflete nosso esforço de passar uma borracha em cima da infidelidade de nossas memórias.

Mas, esse preâmbulo é só pra dar um verniz científico na seguinte frase: “Não dá pra reduzir uma pessoa ao que ela fala ou escreve”.

Outra coisa chata de quem se mete a analisar o outro por meio do discurso dele é a tentação de resumir a análise a comparações com outros discursos e outras pessoas. Nas redes sociais, a exemplo do Facebook, isso já se tornou praticamente uma regra de etiqueta (falta de).

Os facebookianos vão longe em suas comparações, construindo verdadeiras genealogias que trazem numa ponta a pessoa que proferiu um determinado discurso e no início da genealogia figuras míticas ou de cunho religioso, incluindo Deus e o Satanás.

Um exemplo interessante do que estou dizendo é um diálogo, do qual reproduzirei trechos, extraído de um grupo de discussão de uma igreja evangélica. O diálogo é gerado em torno da possibilidade de mulheres assumirem o papel de pastoras nas Igrejas.

Uma das personagens do diálogo (Karla) apoia o pastorado feminino e começa a ser atacada por discordantes. Em um dado momento, uma das discordantes insere o alvo numa formação discursiva feminista, algo como:

- Feminista cristã?, pergunta a discordante sobre o pastorado feminino.
-Sim, com total equivalência, responde Karla .

A partir daí, os discordantes tentam construir a tese de que estabelecer uma relação entre os discursos feminista e cristão é um contrassenso e apelam para comparações:

- [Feminista cristã] É tipo judeu nazista ou negro racista.

Depois disso, começa a ser desfiado um rosário de insultos, mencionando que uma mulher que se denomina feminista cristã nunca abriu uma bíblia na vida e deve se arrepender de seus pecados e entregar todo o coração a Cristo.

Porém, o trecho mais interessante do diálogo é o seguinte:



O personagem Gabriel, com base na ideia de que existe uma equivalência entre pessoa e discurso, erige uma Formação Discursiva ilustrada pela ideia que ele possui a respeito de Frida Kahlo e insere Frida numa genealogia à qual pertencem as feministas, que ele considera um mal a ser combatido. 

Mesmo que não tenha sido intenção dele, sua estratégia discursivo-genealógica nos leva a supor que a árvore genealógica de Frida Kahlo e, portanto, das feministas, tem como ancestrais versões da mulher associadas ao Mal e, em última instância, ao pecado e ao demônio.

Essa estratégia discursiva, tão comum atualmente nas redes sociais, esforça-se por apagar a história das pessoas, seus sofrimentos, contradições, mas também prodígios e resplendor, reduzindo-as a um bloco discursivo que, muitas vezes, não tem sequer relação com o que estas pessoas viveram.

E, quando se anula a existência de uma pessoa, projetando-se nela formações discursivas, no mais das vezes cristalizadas e irrefletidas, abre-se caminho para a intolerância e a exclusão.

Os discursos de ódio, nas redes sociais, vêm dessa tentativa de converter a  riqueza da complexidade e da contradição humanas em avatares esculpidos a partir de retalhos de preconcepções selvagens.



Esta postagem foi escrita em homenagem ao aniversário de Ana Carolina Morais, que discorda de mim há décadas, ajudando-nos a manter uma amizade sólida como são as águas vivas do Espírito.

Também homenageia Karla Sabryna, feminista, cristã  e Karla Vidal, ambas filhas de Frida Kahlo.


26 de abril de 2017

Cassini e a tentativa de sondar o coração de um labrador


Photo credit: Marcello Consolo via VisualHunt.com / CC BY-NC-SA


Vai fazer 20 anos que a sonda espacial Cassini vasculha a imensidão do cosmos
De mansinho
Andou tão pouco e sua morte está anunciada: será nos anéis de saturno
Quem não gostou muito da notícia foi Rita Lee

Valeu o esforço, Cassi
Os sinos de Mônaco e as ondas de Las Vegas se dobram
Diante da tua insondável persistência

Na tentativa de sondar o cosmos humano,
Podemos ser nada gentis
Mas, temos a tendência de procurar no mistério das mentes e dos corações
Um farol que nos ajude a singrar
E desderramar o sangue brotado da cepa estéril das guerras

Labrador,
Se a telepatia fosse minha audição,
Se eu pudesse desatar os nós das profundezas das entrelinhas,
Ainda assim, preferiria te descobrir pouco a pouco
Dia após dia

E contemplar a luz abrigado na sombra do teu abraçoso mistério

23 de abril de 2017

A tribo da "chota" e o pau nosso de cada dia


Photo credit: Jim Nix / Nomadic Pursuits via Visualhunt / CC BY-NC-SA


Não pertenço a nenhuma tribo
Não sei usar arco, flecha, espada
Só uso muito mais ou menos o chapéu mágico de Presto

Vou embora um pouquinho pra sempre
Deixar de roubar o seu tempo respondendo meu zap
Tempo que você pode utilizar melhor
Caçando alguma mulher do sexo feminino e que tenha “chota” em vez de ânus,
“chota” em vez de boca,  em vez de olhar

Vou ter aulas com Salvador Dalí e  com o antípoda de Pigmaleão
E construir uma obra SUSrrealista: só “chota”
E condenená-la à tortura eterna de me ouvir  cantar O Pai te ama

Por que, afinal, o que resta ao macho a não ser provar que o mundo
É indigno de homens e de mulheres,
Que o mundo deve ser reduzido a um campo de tortura de “chotas”?
E, no teatro do absurdo,
Provar que o gênero Macho (seja hetero, homo, vegetal ou mineral) é o único que deveria existir
Reduzindo os cinco sentidos do corpo a um único: o de ser todo “chota”,
Cu ou Caralho


Faz sentido?

E depois da caça, sem precisar ir a nenhum baile de favela,
Empalhe a “chota” dela ou dele e pendure na porta dos fundos da sua oca...
Cabeça

Como homem, você é lindo, bom e justo
Mas, como macho, um sequestrador
Liberte quem amo do cativeiro de si mesmo

Posto que a doçura dele faz falta na grande tribo do mundo

20 de abril de 2017

O primeiro amor que nos existe


Photo credit: elkinator75 via Visualhunt.com / CC BY-NC



Primeiro amor que me existe
Você não imagina o quanto me faço feliz contigo
Uma felicidade que não é por excesso
Nem por falta
Nem também na medida exata
Uma felicidade diferencial, que me faz feliz sem passar na prova de Cálculo Integral

Não tema por eu dizer que estou feliz
Porque minha felicidade não pretende ser âncora para teus aviões
Amo nossas futuras viagens
E quando você precisar partir sozinho
Minha espera e teu retorno ficarão namorando às escondidas

Deixa eu dormir abraçado contigo
Cabeça recostada no teu peito
Meus sonhos migrando para teu coração
Teus cabelos lerão na palma da minha mão
As entrelinhas do prazer e do carinho

Antes de ontem e hoje teus lábios são lindos
De qualquer maneira
Meu beijo é teu
Depois de você ter começado a existir em mim
Os capítulos anteriores se tornaram acidentes de percurso

Quero ter a chance de ficar sonâmbulo quando estiver a sós contigo
E contar meus planos para pipocar as minas de prazer escondidas no teu corpo
Deixa eu invadir tua cama e acampar na tua nudez
E de quando em vez soprar tua nuca até gerar um redemunho
Até que os vórtices do teu ventre e de tua fronte se enrosquem
E teu equilíbrio

Inaugure a Operação Caminho  de Volta

16 de abril de 2017

A primeira vez do Ressuscitado


Photo credit: Anboag via Visualhunt.com / CC BY-NC




A força da ressurreição faz o ser humano desistir de lavar as mãos
E preferir mergulhar de corp’alma
A pedra do sepulcro é esmigalhada pela bomba que explode de dentro pra fora
Curando todas as feridas

A força da ressurreição dissolve a miopia do tempo
Abraão, Santa Bárbara, Luther King, todos sentem igualmente a luz do amor
Que a morte não conseguiu conter

O sepulcro é como uma semente, lançada no terreno mais frio, escuro, seco e pedregoso
E quem pode impedir que esta conheça o verdadeiro amor, sem “se” ou “talvez”?
Ela, a despeito das circunstâncias funestas que a envolvem
Foi regada por dentro por uma tempestade de águas tranquilas
E germinou um dilúvio de luz
O amor é uma colheita de ressurreições plantada dentro da semente

As pedras da corrupção, da deselegância, da insinceridade, da truculência, do deboche
Não conseguem trancar o sonho dentro de um sepulcro
O sonho está se reescrevendo e a tinta da pena não é nem azul nem vermelha
O sonho está se reescrevendo sem qualquer pena ou pesar
Pelas asas do Espírito, o mesmo que ensina o caos e o remanso a namorar

Meu amor, os meus trinta e poucos, ou tantos, hão de ver pulverizada a pedra sepulcral
Que insiste em separar a minha primeira vez da sua

13 de abril de 2017

Um bom pecado para a Semana Santa



Photo credit: dog97209 via VisualHunt / CC BY-NC-ND



Peço licença a Jesus para pecar
Mudar as leis da natureza e tingir o salmão de branco;
As luzes das velas de furta-cor

Durante esse jantar, sentar no teu colo
E te pedir que de quinze em quinze dias
Nos encontremos para uma noite de núpcias
Entrega total: sem compromisso

Outro pecado bom e santo: injetar um alto-falante
No teu coração
E descobrir que ele me chama de amor
Com todo ardor que é possível nascer do teu rosto fofo

Descobrir que é só da boca pra fora quando você cita Petrúcio Amorim
Pra tentar me convencer que não sou eu quem vai te dar na primavera as flores
Que você sonhou no verão

Não falo de tuas virtudes pra não te deixar acanhado,
Mesmo achando que és a timidez mais linda que já visitou a sala-de-estar do meu sonho
Só você consegue me salvar da aquaplanagem

Quero ser uma fôrma onde teu corpo ao leite se derrama até virar o chocolate preferido
(Aquele que vive em constante crise de identidade)
Até transformar em doçura todas as tuas feridas

Toda vez que meu outono te vê
Da flor do meu orgulho caem petulâncias,
E tudo o que minha complicação quer
É ser carregada nos teus braços até virar uma pipa sobrevoando o amanhecer
Da praia do amor

Estou aqui pra ensinar teu prazer a falar em um novo idioma
Todas as minhas línguas estão a tua disposição
Até mesmo aquelas que são mudas e que não têm medo do teu jardim

A vontade de te ter por perto desmascara minha tentativa fajuta de fazer ciúme

Quando der vontade de você sentir raiva de mim, casa comigo em segredo
E me leva teus sertões enluarados, sorrisos largos, pra forrar as paredes de nossos abraços apertados

Você é realmente lindo, dentro e fora do espelho da minha poesia
E dizer que te amo é arma secreta dos meus gestos
Retiro pra minha alma

4 de abril de 2017

Quem se lembra do orelhão? Quem lembrará do uber? E do aniversariante?

The call

Photo credit: P!XELTREE via Visualhunt.com / CC BY-NC-SA


O orelhão, um tipo de cabine telefônica popular no século XX, foi uma invenção extraordinária da sino-brasileira Chu Ming Silveira (1941-1997).

Mas, não é por que o orelhão foi algo bacana que o Congresso Nacional deva proibir o Whatsapp de existir e decretar o retorno triunfante de seu ancestral

Gostaria de saber se aquele que amo votaria pela minha extinção no plenário da Câmara

Ou se escreveria um Projeto de Lei que só me permitisse existir em sua vida de acordo com os seus parâmetros: de acordo com o que lhe é conveniente

Antes mesmo de o Projeto ser enviado ao Senado, seu autor está enchendo-o de emendas com o objetivo de me convencer que sou desimportante pra ele
Quantos orelhões são necessários pra negar um grande amor?

Me pergunto quem terá inventado a vela de aniversário
E quantos ventos são necessários para inflá-la e fazer o barco andar

Em outubro, esperei que você me desse os parabéns e fui vetado por uma frente fria
Que teu coração fez um esforço tremendo pra gerar
Ou então você é caloroso com todos e guarda para mim suas intempéries

Ver tuas mãos trazendo o bolo para quem você considera importante; a vela em chamas
Incendiada pelo teu sorriso...
Esse calor humano reacendeu o frio do teu gesto de outubro

Estou entristecido, mas felizmente
Não estou me sentindo culpado por ter sido colocado na quinta divisão dos teus afetos

Te ver chegando, cabelo novo, meu labrador meio desengonçado e fofo, trabalhador admirável

Me encanta, até que achas uma brecha pra decretar meu encanto inconstitucional e me dar de beber impeachment em gotas em vez de cerveja

Sinto tanta saudade de ti, uma saudade com a asa ferida por um silvo longo e silencioso

2 de abril de 2017

Como te achar lindo em segredo




Foto: Karla Vidal




Desejei teletransportar uma entidade do sistema “S”
De Casa Amarela para Casa Caiada
Quer saber por quê?
Por ciúme
Porque queria que você quisesse ser achado bonito por mim

E você aí, achando que meus elogios são brincadeira
Que eu sou uma alma zombativa

Não adianta fingir que não é contigo
Porque meus olhos te acham lindo com olfato e audição
E sentem falta de um futuro onde poderão te achar lindo com tato e paladar

Não me enxergo e, por isso, desfilo nu aqui nesta poesia
Em busca da safadeza cortante que mora nos teus olhos semi-cerrados

Meu sexto sentido me diz que quando eu ficar cego, surdo e incapaz de mudar
Ainda assim, poderei pedir a minha língua para traduzir teu corpo para o idioma
Que todo ser humano conhece, 
E, quanto mais conhece, menos sabe o que dizer

Gasta até tua última seta comigo
Porque posso ser doutor,
Mas, nenhum diploma faz meu coração bater
Como quando recebo uma mensagem tua

Problema seu se acha ruim que eu te ame em segredo
Problema seu estar perdendo tempo de me abraçar em segredo

Meu cafuné não está preocupado se você vai cortar ou não as madeixas
O que ele quer é permissão pra voar por dentro dos teus cabelos
Em busca de orvalho
Você vale o risco de eu me perder nessas paragens

Tudo o que escrevo sobre ti não vê a hora de ser
Capaz de dormir no teu colo 

Quero que, agora que acabou o dia da mentira,
Você diga com tua voz calada de tanto
Andar pelos meus versos
Que não tem nojo, ou medo, de mim
Pra que teu carinho bata à porta do meu zap, derretendo minhas prisões de insegurança máxima

1 de abril de 2017

Como achar você bonito em segredo


Foto: Karla Vidal




Desejei teletransportar uma entidade do sistema “S”
De Casa Amarela para Casa Caiada
Quer saber por quê?
Por ciúme
Porque queria que você quisesse ser achado bonito por mim

E você aí, achando que meus elogios são brincadeira
Que eu sou uma alma zombativa

Não adianta fingir que não é contigo
Porque meus olhos te acham bonito com olfato e audição
E sentem falta de um futuro onde poderão te achar bonito com tato e paladar

Não me enxergo e, por isso, desfilo nu aqui nesta poesia
Em busca da safadeza cortante que mora nos teus olhos semi-cerrados

Meu sexto sentido me diz que quando eu ficar cego, surdo e incapaz de mudar
Ainda assim, poderei pedir a minha língua para traduzir teu corpo para o idioma
Que todo ser humano conhece, 
E, quanto mais conhece, menos sabe o que dizer

Gasta até tua última seta comigo
Porque posso ser doutor,
Mas, nenhum diploma faz meu coração bater
Como quando recebo uma mensagem tua

Problema seu se acha ruim que eu te ame em segredo
Problema seu estar perdendo tempo de me abraçar em segredo

Meu cafuné não está preocupado se você vai cortar ou não as madeixas
O que ele quer é permissão pra voar por dentro dos teus cabelos
Em busca de orvalho
Você vale o risco de eu me perder nessas paragens

É primeiro de abril e tudo o que escrevo sobre ti não vê a hora de ser uma verdade
Capaz de dormir no teu colo 

Queria que antes de terminar esse dia da mentira,
Você dissesse que tem nojo de mim
Pra que, quando chegasse meia-noite,

O teu carinho batesse à porta do meu zap, desmentindo minhas prisões de insegurança máxima

28 de março de 2017

Porque demonstrar é preciso



Foto: Karla Vidal


Ter medo de demonstrar não é nada estranho
Se pensarmos que dentro da demonstração
Moram anjos, mas também monstros

Demonstrar implica fazer o tempo parar na frente de todo mundo
Eis aí a verdadeira nudez: fazer o tempo parar
No tempo corrido, é comum nos sentirmos comuns
E daí pra nos sentirmos feios e até desnecessários é um pulo

Mas, uma demonstração de amor pode rasgar esse hábito de feiúra e estranheza
E nos fazer sentir bonitos, desejados, ansiados
É meio um bocado constrangedor se sentir lindo quando a roupa do sentir-se feio
Parece nos cair melhor

Nunca vou conseguir demonstrar tudo o que quero
É muito monstro que tenho de vencer em mim mesmo
Muito pouco tempo pra converter em poesia
Cada novo detalhe encantador que encontro em ti
Presencial ou telepaticamente

Queria pedir às segundas e quartas que ajudem meu anjo a vir
Pra que eu possa ter matéria-prima pra minhas demonstrações
Que só ele as percebe

Demonstrar o que sinto
Em alto e bom sonho
Por meio de alto-calantes
É uma forma de desmorrer
De ajudar minha fé a acreditar
E adiantar o relógio da ressurreição
Porque toda vez que você chega
O tempo incerto se disfarça de hora exata
E minha exaustão vira festa

Desde sempre,
Você já é bem-vindo
Não há nada a ser provado
E a demonstração não precisa fazer sentido
Rimar, ou ser coerente
Basta ser rio ou mar

Receba meu carinho hesitante, alijado, tartamudo
Meus monstros mais doces

Ajuda-os a ninar

24 de março de 2017

Sobre o zap e a arte de tomar a iniciativa



Foto: Karla Vidal


Zap

O primeiro zap sempre quem manda sou eu
Nunca sou eu a primeira opção de carona
Sexta à noite, você prefere deixar pra me ver sábado de manhã
E tua vontade de me beijar só tem tido coragem de ser um aperto de mão
(mas, de vez em quando, ainda bem, que um abraço desmente essa estatística cruel)

Quero que cuides de mim, ser cortejado e experimentar como é ser visitado por teu zap e depois por teu toque
Pois não pretendo que nossa ligação caia em nenhuma caixa postal
Não consigo enjoar de você porque o apaixonar-se por ti ensina a Cupido,
Toda vez que te revejo, um novo detalhe de tai sabaki

Voltei no tempo pra mostrar a quem te traiu o anjo lindo que ela desperdiçou
E pra te convidar a dançar quadrilha comigo no quarto escuro da adolescência

Não é meu objetivo te monopolizar,
Mas quero te pedir que você queira precisar ficar uma noite no meu apartamento
Que você precise me ajudar a trocar a luz
Acendendo o luar dentro do meu quarto

Inventa uma desculpa pra se convidar pra minha cama
Que eu acho uma passagem secreta nos lençóis para mergulhar de cabeça no teu abraço sonolento
Nessa hora, vou querer que seu corpo conte ao meu as cenas  censuradas de Californication

A rosa dos ventos apontava na direção Norte
Quando te encontrei de uniforme, pela primeira vez,
Meu coração, infrator nato
Não se acanhou de fazer estacionamento proibido
No teu sorriso de bom combatente
E só queria te pedir que você substituísse minha infração gravíssima

Por uma advertência: “Te advirto de que vou cometer a infração de te beijar na mão e na contramão com multiplicador zen”

Eram 2h2? quando te vi e iniciei um interrogatório,  perguntando a Deus se ele era presente
No cenário do dia em que conheci você. 

Ele me confessou que se fez presente fazendo de você um presente pra mim

Aproveitei e pedi que na radiola do teu pensamento sempre rolasse uma música de fazer feliz
Pra ajudar a enfrentar o calor e a dureza de permanecer de pé o tempo inteiro

22 de março de 2017

Arrumando o depois da festa para a chegada do outono

tanto freddo..ma ne è valsa la pena

Photo credit: vale ♡ via Visualhunt.com / CC BY


Outono

Faz menos de uma semana que te vi
Mas, minha saudade está algemada pela liberdade de querer te rever

Iria sentado no teu colo a viagem inteira
A menos que você preferisse cuidar de mim
Até eu poder acordar me sentindo aceito ao invés de tolerado

Vou te visitar no zap
Te mandar um boleto sem querer
E achar um pretexto para ser eleito rei dos enganos

Como primeiro decreto, ordeno que minha cabeça descanse
No teu aperreio até ele evaporar
e que, se você for dançar com outra,
que teu abraço exausto fique guardado pra mim

Porque não me é permitido te trair
Ou te desejar mal
Embora você não tenha querido saber nada a meu respeito

Não guarde nossa valsa pra outra
Porque se isso acontecer, você me perderá pra sempre
Ou terá de criar um atalho para
Nos encontrarmos onde o prazo de validade do pra sempre termina

Não posso evitar que você seja, pra mim,
A festa dentro da festa
O sonho dentro da vigília
O beijo dentro do abraço

15 de março de 2017

Antídoto para o assédio e para o despotismo



Foto: Karla Vidal



Lembrar-me de quem amo me traz força e doçura suficientes para enfrentar a opressão de quem pensa estar a altura dos deuses

O amor nos dá mais poder do que quem tem poder jamais poderá supor

Altares não são mais necessários depois que se chega à idade de Cristo

Não é na anulação do outro que descubro com o que o respeito parece

Prefiro que o respeito se pareça com a noite em que poderei sentir os cabelos da minha costeleta suarem na sauna do teu peito

Teu zap cicatriza a partitura dos meus corações: o do corpo, o da mente e o do espírito

Sou mais sereno contigo e minha mão toca a tua desmentindo as léguas submarinas

E as distâncias interplanetárias

Estou rezando para que voltes para perto e para que teu trabalho seja o mais confortável possível

Ou até para que você se mude se o teu ser feliz precisar disso para brotar

Quem sou eu para monopolizar tua carícia quando há tantos desertos no mundo precisando de tuas técnicas de jardinagem?

E tantas músicas com saudade de teus passos de dança

Mas, devo confessar que me assusta deveras a ideia de pensar em tua bochecha fazendo suar outra que não seja a minha

Ou teu beijo visitando outra nuca em vez de preferir a minha sempre

Depois de escrever estas palavras pra ti, me sinto mais forte pra amanhã enfrentar a classe dominante

Agradeço a Deus por você ter acampado na minha inspiração

8 de março de 2017

O Dia Internacional da Mulher e o combate de Malala Yousafzay à sub-existência


Fonte da imagem: Agência Ecclesia


Em 2014, a paquistanesa Malala Yousafzay ganhou o prêmio Nobel da paz. Sua luta tem sido pela garantia do acesso de todas as crianças ao ensino e à leitura.

Em seu discurso, na cerimônia de recebimento do Nobel, Malala lembrou que quase 70 milhões de meninas não têm acesso à escola.

Na mesma ocasião, a mais jovem ganhadora do Prêmio (17 anos de idade), indagava-se por que os países são chamados de poderosos criando guerras, mas são fracos para alcançar a paz e por que é mais fácil dar armas do que dar livros.

Vítima de um atentado à bala, em 2012, a então adolescente sobreviveu e sobre o assunto afirmou que tinha duas opções: ficar em silêncio e esperar que a matassem ou falar e depois deixar que a matassem. Ela escolheu a segunda.

O que os talibãs que a tentaram assassinar não perceberam é que Malala age conforme o principal preceito do Corão: a busca da verdade. E que não há como perseguir a verdade sem ter acesso à educação, sem deixar que a mente crie asas.

A paquistanesa também notou que a defesa dos direitos das mulheres implica a defesa do direito de existir em corpo, mente, espírito e dignidade. Trata-se de um direito de todo ser humano.

É uma luta contra o impulso de encarar como normalidade a criação de espaços em que as pessoas sub-existem, não só no sentido de não terem alimento, roupa e moradia, mas sim no sentido de criar símbolos e rotinas que dividem os seres humanos em categorias pautadas pela subtração de direitos, incluindo o direito de falar, beijar, abraçar, conviver.

Ou ainda a criação de grotescas categorias híbridas onde uma máscara de acesso ao direito esconde a sonegação de outros, como ocorre com tantas pessoas que silenciam vocações e afetos para poder ser “aceitas” e “respeitadas” no círculo de trabalho, de estudo e na Igreja.

A noção de que a luta pelos direitos da mulher representa a luta pelo direito de qualquer ser humano a sair da zona de sub-existência é sumarizada por uma frase proferida por Malala em Oslo, em 2014: “Nós não podemos progredir quando metade de nós é deixada pra trás”.

No que diz respeito ao contexto brasileiro, onde recrudesce uma pífia ideologia machista-messiânica, uma frase que deixo registrada em celebração ao Dia Internacional da Mulher é: Continuem sendo machos (as) e eu seguirei sendo humano ou, simplesmente sendo.

7 de março de 2017

Citando Deus sem usar aspas


Foto;Karla Vidal


Fazia tempo que não citava Deus num poema
Cito, por interesse puro, não nego
Abro mão das aspas
E volto a ser nu: eis a minha oferta

Peço a Abba (Papai) por ti, nesses termos:

Abençoa a tua espera
Tua barba mal feita e a bem feita também
Tua primeira semana distante

Abençoado seja o teu destino
E o desatino também

Fortalece, Senhor, a imunidade do meu amor
Mas que ele não almeje ser imune a mim
Derrama tua luz sobre a paleta de cores com a qual ele pinta suas mentiras
E sobre as verdades que ele não consegue esconder na doçura de seus gestos
Prepara o retorno dele, mas só se isso puder te fazer mais feliz ainda

Deus te guarde em teu charme desengonçado
Porque se eu arenguei contigo
Foi pra disfarçar a ternura
E os abraços que sangravam da represa do meu olhar

Peço perdão a quem tentei convencer que você nunca significou nada
Porque menti pra tentar ir me acostumando com a distância

Obrigado, Senhor, por ele estar me olhando do futuro,
Me acenando do passado, me abraçando no presente e me beijando no além-do-tempo

Agradeço a Deus por ter feito você chegar no de-ai mais atrapalhado e certeiro,
Vencendo-me a dor e gerando mais algumas

Entrei no seu maai com complicação, novidade, Eu te amo e tudo
Mas, você também invadiu o meu, não se engane
E nunca será da conta de ninguém o mistério que esse encontro
Acrescentou à história das artes

Pela intercessão de Burlemax, que teus jardins tragam os melhores frutos
E que teus frutos sejam de equilíbrio, mas também de ousadia e destemor

Estou por aqui
Amém

6 de março de 2017

Poema da gratidão ferida

Árvore de frevo
Foto: Karla Vidal



Embarquei numa tempestade sem respostas
E ao desembarcar, sinto-me afogado num deserto cheio de interrogações

Se meu caminhar é uma dúvida, meus passos não têm dívida alguma com 
O arqueiro que nunca empunhou um arco

Obrigado por tentar me fazer acreditar que nada do que digo ou faço tem valor
Por discordar de mim em tudo
Por zombar do meu físico, da minha postura
Por mostrar que um cachorro Labrador merece mais seu carinho do que eu
Por telefonar para quem sequer existe
Mas, mesmo sem existir, merece o dengo da sua voz mais que meus ouvidos

Agradeço porque minhas tentativas de te fazer feliz fizeram você
Me achar ridílouco

Sou grato por você me fazer quase acreditar que não sou digno de ser amado
Por ter convidado outra pessoa para o carnaval, para o bar, para dançar de rosto colado
E ter, sutilmente, me convidado a ficar invisível na mesa, na festa e na fotografia

Graças por usar os maiores clichês contra mim como se tentasse provar o tempo todo que eu sou desesperado por você

Amor, meu maior agradecimento é ao meu coração por não ter acreditado que

O que você acredita que eu sou é o que eu devo acreditar que sou

E por não conseguir ter certeza sobre nenhum dos versos deste poema


Em breve, o poema da gratidão redimida...

3 de março de 2017

Para deixar a cobrança de lado

Foto: Clécio Vidal


Tenho vontade de ir contigo
Lá onde minha nuca é uma rua sem saída para teu beijo

Parece que a profecia de um amigo deu certo
E minha raiva sempre termina virando saudade

Não esqueça de buscar nossas alianças
Na câmara secreta do teu coração
Ou numa terra onde casar é desnecessário
Onde sou teu sendo mais de mim mesmo

Cada vez que você se esforça pra provar
Que não tenho importância nenhuma
Choro ao avesso
Pra não te preocupar

Talvez, eu deva admitir que sou louco
Por enxergar franjas de apreço
Na colcha da tua formalidade

Cada dia sou uma novidade
Uma complicação
Esperando ser desarmada pelo teu carinho
Estou pronto pra me derreter
Em tua bochecha
Que insistiu em me fazer ciúme
Colando-se com o rosto da dançarina

Não me importa se você é tímido ou festeiro
Porque consigo enxergar você sendo você
Onde quer que você esteja

Vem curar tua ressaca nas minhas ondas
E abraça meu terremoto
Até ele confessar que é um terreamo

Me navega
Até me convencer que arengar não é preciso
Que viver é a imprecisão mais preciosa

1 de março de 2017

Desabafo do Lanterna Verde na quarta-feira de cinzas



Foto: Cláudio Eufrausino



Lanterna de cinzas

Fiquei em dúvida se meu amor inventou que tinha uma doença
Pra que eu ficasse por longe
Pra estar livre do fardo de ser amado por mim

Mas, isso não me impediu de arriar, arriar (tris), no Recife Antigo
Até perto do sol raiar

O horário de verão já estava hibernando
E meus corações viram cores nunca d’antes navegadas

Fique em paz, meu amor,
Nesta quarta, escrevo para dizer que
Respeito teu castelo de cinzas
E respeito mais ainda minhas chamas desabrigadas

A propósito, ficaria contigo, fosse doente, cego ou paralítico
Gostando ou não de samba, frevo ou foxtrot

O carnaval te ama e
Não tenho ciúme de te ver dançando de rostinho colado com ele

Tem doído cogitar que você fica feliz quando me sinto reduzido a cinzas
E está tão perto de chegar o dia em que entrará pela minha porta um amor
Que realçará toda a multicor que sabe de cor
Onde está a porta de mim
Que nunca esquecerá o sabor de ser prisma

A quarta-feira de cinzas pediu carona ao momento
Em que as correntes de ar e as marítimas dançam o ritmo da alforria
E, por que não, da libidiberdade

A quarta-feira, apesar de ingrata, chegou antes de você trazendo um monte de pétalas
Embriagadas de Eu te amos

Depois dessa visita,

Não é que acordei parecido com o Lanterna Verde...
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