21 de setembro de 2017

Convite para um anjo

Foto: Karla Vidal


Como devo me sentir ao chegar perto dele:
Anjo que me entrega a um espelho-bomba
E reduz minhas cinzas a coração?

Tenho aprendido a saber quase nada sobre ele
Só não entendo por que quanto menos sei
Mais bonito ele se torna pra mim

Por que ele finge que não quer que eu seja seu humano da guarda?
Vou abrir uma oficina de segredos e ele será cliente exclusivo
Se me deixar fazer das suas asas cobertor
Nas noites frias de sua cidade distante

Quando o vejo, o ar se enche de estilhaços de canções de A-HA
Gosto de pegar emprestado flechas de sua lua tímida
E raios de seu sol falante


Aceite meu convite para fazer parte da festa de sua existência

13 de setembro de 2017

Versos de um convite

Foto: Karla Vidal



Estou pronto para ex-calar um arranha-céu até o grito
E, ficar na ponta dos pés, esticar-me rumo a um novo primeiro beijo
Que apagará a constelação da indiferença: estrela solitária que acredita
Ser miríade

Mesmo que os bastidores sejam cheios de riso, rumor e espinho
Meu segredo segue confiante, ofuscando baixinho a ribalta

Basta de dor: foi a conclusão a que cheguei quando minha astronave fusca
Aterrissou no céu moreno do teu olhar humano

Meu eu ridículo encheu-se de abraço
E meu corpo, onde for tocado, derramará música com sabor de tamarindo

Tomara que a sede de quem, sem perceber, varreu eclipses, para se aproximar de mim
Aceite o convite do meu deserto
E celebre comigo um Feliz Oceano Novo

Dessa vez, estou preparado pra amar e sentir que o prazer da tua companhia
É mais importante que qualquer hora extra, do ordinário tempo

Porém, o mais importante que o novo amor me traz

É o prazer de descobrir como é bom estar de volta em mim mesmo, mesmo que seja de mansinho

Meu mim mesmo te estende a mão

Pode me chamar pelo zap, de madrugada, se o pneu do teu cometa furar
Ou simplesmente se quiser trocar silêncios por carinho

4 de setembro de 2017

O blog Acedia comemora sete anos com a marca de 100 mil views

Arte: Pipa Comunicação

O blog Acedia está completando sete anos de existência e atinge a marca de 100 mil visualizações.

Considero este número emblemático, tendo em vista que, nesses "tempos de McDonald's", expressão utilizada pelo cineasta alemão Win Wenders para designar a contemporaneidade, um espaço reservado a filosofia e poesia parece não ser um prato tão apetitoso.

Mas, talvez isso seja preconceito meu.

É perceptível que o Acedia costuma fugir de sua proposta inicial de trazer recortes filosóficos da mídia.

Crônicas, poemas e outros gêneros textuais entraram clandestinamente nessas paragens.

Ou talvez não tenha havido fuga porque o que há de mais filosófico do que o pensamento clandestino?

Muita gente ainda me pergunta se sou um assediador por escrever num blog chamado Acedia.

Mais uma vez respondo: Assédio é com dois ss e Acedia é com c.

Acedia é, resumidamente, a indolência do espírito: algum lugar entre a preguiça e a letargia.

Há também os que pensam que por me propor a refletir sobre o potencial estético da melancolia sou depressivo.

Quem pensa assim, lasque-se.

Mas, é exatamente o oposto. A reflexão sobre o caráter estético da tristeza a torna impotente.

Por isso a poesia é tão presente nesse espaço. O simples fato de tratar poeticamente a tristeza, o amor e a alegria já liberam destes sentimentos carga emocional, ajudando o coração, a mente e o espírito a se reoxigenarem.

Tem algo aí da proposta do Aikido. Redirecionar a energia, em vez de fingir que ela não existe enquanto ela te devora interiormente.

Obrigado a todos que dedicaram alguns minutos de sua existência catando estilhaços desse coraçãozinho de poeta.




Sobre o não, que é garantido, e o silêncio, que também é resposta - Parte 1


Foto: Clécio Vidal

Ouço em todas as frequências radiofônicas que não se deve
Ter medo de falar o que se sente porque o não é garantido,
E o sim uma possibilidade que não deve ser desacatada.

Quero saber onde
Está atracado o sim que teu corpo sem porto e sem fronteiras
Silencia.

O Não é tão incisivo: zune como uma espada cortando um ponto final
Ou como um sopro derrubando uma muralha de ar, que perdeu o fòlego


Não consigo compreender o adágio “Silêncio também é resposta”.

O silêncio transforma o verbo responder em respondoer 
Mas, o direito de silenciar é sagrado: talvez seja a mais refinada manifestação
Da liberdade de expressão.

Existem, contudo e com nada, dois tipos de silêncio:

O silêncio de quem se rende ao sublime: margem onde só resta ao mar da palavra recuar

O silêncio que tenta ser metáfora da inexistência, da invisibilidade, da indiferença: rio de Eu-te-amos que corre de trás pra frente, jogando em cima
Do tempo a responsabilidade de transformar a nascente em morrente.


Me sinto capaz de dividir a cama com teus atraentes talvezes


Pero, queria ter coragem de ter medo dos meus sins e nãos, 
Mas, não tenho


Tenho, na verdade, medo de não falar  
E perder a hora de embarque no teu sim 
Ou de falar/saltar e descobrir que teu não é meu paraquedas 
E que não terei chance de cair no teu abraço.

29 de agosto de 2017

Bolsonaro também perseguirá os heteros


Chainless Photography via Visual Hunt / CC BY-SA



Uma parcela daqueles que se entendem como heterossexuais - ou, melhor dizendo, os heteronormativos - acham que estão livres da perseguição e do preconceito. Como se os gays sempre fossem os “outros”.

Nas rodas de conversas, os heteronormativos chamam a si mesmos pelo nome, mas apagam o nome dos homossexuais, que são reduzidos a uma categoria, sendo-lhes retirada individualidade.

O dilema da transexual Ivana, da novela A Força do Querer, ilustra essa tendência. Boa parte do sofrimento da jovem se deve ao fato de viver cercada por pessoas que, a fina força, querem fazer coincidir gênero e sexualidade, anulando as identidades complexas que se erguem nessa tensa fronteira.

A heteronormatividade comete o erro de achar que o fato de ser homossexual proíbe o ser humano de ser indivíduo dotado de particularidade e personalidade.  Daí, o entendimento de que todo homossexual que não se encaixa na forma de estereótipos é um enrustido ou um embusteiro.

Muitos têm se prostrado diante das ideias de Jair Bolsonaro, chorando nostalgicamente pelo retorno de uma era ideal – que nunca existiu – ondeseria possível distinguir, com exatidão, as fronteiras entre masculino e feminino, paralisando o complexo diálogo entre Yin e Yang.

Mas, a ideologia bolsonariana em sua busca pelo modelo ideal de homem vai produzir um efeito semelhante ao do conto O Alienista, de Machado de Assis, onde o personagem-título, de tanto enxergar loucura em todos que o cercam, acaba chegando â conclusão de que o único louco era ele mesmo.

A ideologia bolsonariana assim como rebaixa os homossexuais terminará criando subcategorias de heterossexuais, que também serão vítimas de discriminação.

Assim, poderão ser discriminados e tachados de enrustidos, por exemplo, os heterossexuais engomadinhos e perfumados; Ou talvez os heterossexuais que fazem da academia um templo de culto ao corpo.

Afinal, o ideal bolsonariano só chega ao orgasmo quando coloca todos sob suspeita. Ser homossexual assumido é, na visão à Bolsonaro, um crime. Porém, ter comportamentos que fazem a pessoa suspeita de não ser heterossexual é, no código penal bolsonariano, um crime qualificado e com motivação torpe.

Se, Deus nos livre, a ideologia bolsonariana triunfar, não vai adiantar sair por aí dizendo que come buceta para escapar da estigmatização. Isso porque, como nos lembra o canto traidor de Ossanha,  “aquele que diz sou não é”.

O Governo bolsonariano vai estabelecer uma hierarquia de castas de heterossexuais, conforme supostamente o heterossexual esteja ou não afastado do “vírus” da homossexualidade.

E, no fim, talvez Bolsonaro descubra que até mesmo ele é um heterossexual sob suspeita.

25 de agosto de 2017

O (trans)tornado e suas calmarias


Foto: Karla Vidal


Todos os dias, sou apresentado a um desconhecido
A quem amo amar
Nele posso ancorar meus naufrágios

Vela e farol se tornam desnecessários
Porque sinto que minha luz está reaprendendo a se acender

Prefiro beijar a falar da vida alheia
E pós-firo segredar a segregar

Quem quiser dormir abraçado comigo
Não pode ter intolerância a liberdade

Depois que atravessei clandestinamente
A fronteira de mim mesmo
Perdi a vergonha
De ser fiel ao eu que me tornei

Quero te emprestar um pouco
Desse tornado doce
Mas, a prioridade
É me dar a mim mesmo

As pessoas acham tanta coisa a desrespeito dos outros
E vivem tão perdidas

Um abraço de portas abertas
E estreitos ensolarados
É melhor que qualquer achismo

Invada-me, como um cavalheiro,

E me prove que há ciência na astrologia

13 de agosto de 2017

O que Papa Francisco deve fazer a respeito do desfile de tochas neofascista


umbertodpc via VisualHunt.com / CC BY-NC-ND


Uma funcionária pública me pediu que orasse pelo filho dela
Eu disse que ia pedir que minha mãe orasse, mas ela insistiu em
Meu coração bom [o ônus da prova cabe ao acusador]

Mas, mal sabia ela que, na hora de orar, eu pedia
Que Deus fosse rápido em ouvir minha prece
Que, ultimamente, sempre só consegue morar de passagem por meu coração absurdo

Às vezes, pareço uma caberna onde a inteligência é substituída pelo eco de trocadilhos
Um louco motiva meus trilhos a não desistirem de fazer os trens tremerem
E visita uma oca onde o Aikido não se contente em regredir à faixa preta a cada nova aula

Outro dia, um amigo me perguntou se a ruindade de fulana era por ela ser lésbica ou algo do tipo
E percebi que para ser “bom”, era necessário ser hetero, casado, rico e se deixar controlar por
Um macho, independentemente de ele ser homem ou mulher ou, até eu mesmo

De repente, esta poesia foi interrompida por uma tocha
Lançada de outra dimensão por um neofascista

E por que pra ser contrário à imigração,
Preciso destruir os judeus?

Não se é contra os negros e os gays
Se é contra uma paisagem onde a alternativa não seja mais subjugada
Onde o fazer alheio seja não o cumprir a ordem, nem o ufanar-se do progresso

Entre dois gays, onde fica o lugar da mulher subjugada?, indaga um furioso neofascista
Como estarei no controle, num mundo onde meu chicote não é páreo para a lei áurea?,
Questionou um futuro candidato à presidência da Ilha de Vera Cruz

E ele mesmo responde, sem tirar as mãos do Bolsonaro:
Meu lugar no mundo é à sombra de alguém fulminado por um ataque terrorista
Minhas dez mil virgens, minha água fresca, meu paraíso
Brota numa taça amarga

Taça de sangue feito de uvas selecionadas,
Uvas que não se encaixam na ditadura da natureza,
Cuja bula foi prescrita não por “Eu Sou”, mas por “Seja como eu”
À luz do tenebroso lançar de dados de Lord Armadilha e de um Loukin-Jong

Papa Francisco eu te ordeno que, pelo amor do Amor, não desligues as fontes do Vaticano
Onde encontraremos água pra lavar os corações rochosos que se escondem por trás das tochas?
Onde as moedas mergulharão para realizar meus desejos egoístas?

Eu te ordeno que, pela gentileza do Galileu, canonizes Galilei

Pra que haja tempo ainda de meu coração se apaixonar nova e reciprocamente

18 de julho de 2017

A ressurreição que dói


Ressurrection Bay
Helder Ribeiro via Visualhunt.com / CC BY-NC-SA


A ressurreição dói, eu não sabia
Como um sol que nasce anoitecendo
Um pássaro sem ter futuro onde pousar
Pois lhe sobra juízo e lhe falta dia

O rosto do meu reflexo vive banhado de sudário
E, se ressuscitar é morrer de trás pra diante,
Desdoer também dói

O anjo deu uma demão de cais no meu sepulcro
Desde então, a ressurreição espera a chegada de um barco
E a vela procura fôlego num beijo

Estou ressuscitando e o teu Não me toque
Continua me crucificando
O detalhe é que de Cristo não tenho quase nada
Só a mania de acreditar sem ver

O que será de um ressuscitado
Se ele for predestinado a não ser achado por seu novo amor?
Que eu possa deixar todos os sinais de arrombamento
No calabouço do segundo dia

Cala a boca de um Nunca Mais
Que censura meus sonhos
E discorda do meu acordar

Será que ressuscitar é um remédio que
Só faz efeito para quem consegue
Um convite para fora de si mesmo?

Um convite que tem demorado a chegar
Posto que o anjo apagou meu endereço,
Mas a carta não pára de chegar
Só pra me lembrar que jamais serei o destinatário

Neste baralho, por enquando não passo de um ás de ferrugem

9 de julho de 2017

Dire Fags ou sinais de arrombamento em uma árvore de harpas

Flor da Ingazeira



De repente todas as promessas de amor eterno
Tornaram-se juras de nunca mais

Uma Ingazeira afogou-se
Era mais brilhante que uma sarça
E chorava mais que uma árvore carregada de harpas

Foste embora e quem acabou sendo desterrado fui eu


A saudade não conseguiu me levar onde queria
Só conseguiu me atingir com um tiro de arpoador
Que me fez morrer de um ano 1 ano e 10 meses atrás
Até o amanhã de depois




A prata do espelho oxidou
Mas, antes, ele devolveu ao bobo a imagem de um louco que paga as suas contas

Tentando descobrir um jeito de fazer seu rosto bonito
Caber numa cabeça feia
De as entradas de seus cabelos não irem ao banco dos réus
E seus versos de amor não se esvaírem por algum lugar
Que faça jus ao título de arrombado que recebera

Durante um show de folk guitar:
Reencarnação de uma cítara, que chorara às margens de um rio babilônia
Avistando um futuro onde o disco voador dos novos baianos pousava
No heliporto da banda larga dos Dire Straits ou, quem sabe,
Dos Dire Fags.

Façam suas apostas: Ele foi à Igreja ou foi espionar a nudez masculina
Em alguma roleta clandestina?

E todo homem que ele amou se resumia a um com beijo de herpes
Ao som da harpa de Gabriel

Featuring uma harpia 
Que respirar não podia
Por noite,
Preferia




6 de julho de 2017

A obra do escritor que previu o recente enlouquecimento do clima pernambucano

Capa do livro de Rodrigo Capibe
Foto: Cláudio Eufrausino.


Comprando uma tapioca perto de casa, no bairro da Iputinga, zona oeste de Recife, deparei-me com um homem barbudo, olhos esbugalhados, que, com auxílio da Internet do celular, aberta na página de algum instituto metereológico, vaticinava:

“Estão prevendo que, nos próximos dias, Pernambuco terá os maiores índices pluviométricos da história. Tem uma tremenda tempestade se aproximando do nosso litoral.”.

Intempestivamente, linkei a figura daquele repórter/profeta/Barbudo com a de Antônio Conselheiro.
Foi inevitável também fazer uma conexão entre aquele relato profético e o livro Arraial Novo de Canudos (Tarcísio Pereira Editor), lançado em novembro passado pelo escritor Rodrigo Capibe.

Arrisco dizer que nenhum meteorologista descreveria com tamanha vivacidade e precisão a loucura do clima recifense (sensação térmica de 18 graus), das últimas duas semanas, como faz a profecia de Capibe, que, este ano, tornou-se balzaquiano.

Com a devida licença poética e as bênçãos da hipérbole, o jovem autor pernambucano empresta às chuvas o poder de gerar uma catástrofe comparável ao dilúvio. 

Mas, a gota d'água dessa situação foi o surgimento de um boato de que uma represa situada num dos municípios da Região Metropolitana de Recife, estourou, repetindo a trágica situação ocorrida na década de 1970, inundando a capital de Pernambuco.

E esse dilúvio é, literalmente o divisor de águas do romance, cujo título é o nome de uma escola pública onde o personagem principal, Tibério, recém-formado em Biologia, leciona.

Mesmo fortemente influenciado pela noção darwiniana de Seleção Natural, Tibério, conflituosamente, oscila entre acreditar que o ser humano é um Bom Selvagem e crer que as pessoas são como certas espécies de formiga que raptam larvas de outros formigueiros e as criam para depois fazer delas escravas.

Sem se dar conta, as formigas reféns pensam ser “iguais” às demais quando, na verdade, desempenham tarefas para as quais as escravizadoras não estão fisicamente preparadas. A ironia é que as formigas escravocratas dependem totalmente das escravas para sobreviver.

Este dilema atravessa o livro inteiro. Professores que tentam fingir reproduzir um modelo de sala de aula esgotado, onde o Mestre controla os alunos, mas que, interiormente já se deram conta de que dependem da cooperação dos estudantes para ter êxito: algo que coloca o professor numa encruzilhada cortada pelo entusiasmo, o medo e apatia.

A tragédia pluvial, narrada por Capibe, é uma das faces da moeda. A outra é representada pelo caos de uma sociedade que se esforça para ser pós-moderna, mas não consegue se libertar do autoritarismo dos antigos engenhos.

Com refinamento, o autor exibe as diversas identidades desse caos que, à luz da rotina e da urgência da urbe, permanece oculto aos olhos inertes dos adultos e dos adolescentes.

Tibério é também narrador e, nesse papel, veste o instigante tédio de outros narradores-personagens como Bentinho, em Dom Casmurro, e Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere (autobiografia).

Surpreendentemente, o final do livro acontece antes da metade, antes do divisor de águas. Mas, isso não impede a obra de continuar e, mesmo depois do fim, atingir o clímax.

E o pós-fim (o fim depois do apocalipse)? Deixo aos leitores a oportunidade de “julgarem” a alternativa encontrada por Rodrigo Capibe para lidar com este paradoxo.

12 de junho de 2017

Santo Antônio e os fogos de arte e cio


Photo via VisualHunt.com


Dobrei um pedaço de vento e guardei
Do lado de fora de um poema lido por todas as gerações
Por todas as solidões

Juntei mais um nunca
E plantei-o às margens da fogueira
Passado um século de minuto,
A simpatia revelou o nome de quem não precisa mais chegar

Se eu soletrasse corretamente o nome daquela estrela de chuva
A fusão nuclear não precisaria mais ficar dizendo que sente muito
Eu sinto muito e o pouco arrependimento que trago
Foi absolvido por meus pulmões

Fiquei te esperando até agora em 2020
Mas, tinha muito futuro esperando por mim em 2017
Onde as entradas do meu cabelo não atrapalham
O aterrissar dos beijos

Santo Antônio apagou a fogueira
E todo artifício dos corações

Entrou no cio

11 de junho de 2017

Poema de um Segura Vela


Strasbourg



Vela

Se o motivo for celebrar a vida de pessoas que amo
Não me incomoda parecer um segura vela
Aliás, topo segurar a vela, o barco e a tempestade

Meu irmão mais novo completou 30 anos
Que bom saber que ele tem um grande amor
Saúde, paz, competência
Dizer que ele é inteligente não é elogio
Porque contra fatos não há Photoshop

Balzac se permitiria ser editado por ele
E Adam Smith ser repaginado
Duvido que ele seja ateu
Porque ele é de todos nós que desejamos
Que a profecia de Lulu Santos se cumpra
E chegue enfim um novo começo de era
Além do mais: onde o amor e a caridade, Deus ali está

O futuro é uma onda de agoras que avança mar a dentro
Por mais algumas várias décadas,
Quero poder te ajudar na travessia desse oceano
Que brinca de desertar
No meio da batalha

Se bem que, com meu amigo, gosto de brincar de aposentar
As metáforas beligerantes

Deus abençoe a linda moça Renascida
Que ama te aguentar
E que emoldura o prazer que temos todos de te aguentar

Este porra nunca me curtiu no Facebook
Nem me adicionou num grupo do Zap
Meu querido, você é lindo

Não gosto de ficar agradecendo
Porque o agradecimento é muito protocolar
E prefiro Pentecostes

Como te disse, minha falha trágica é acreditar em Deus
Então, peço a ele que encontre lugar para recostar sua luz

No travesseiro do teu peito

Cada dia, possas fazer uma vela
E soprar um pedido
Acendendo um mar de graças
Com ou sem uma mãozinha de Adam Smith


A Andreas Vieira e Renata Bandim


2 de junho de 2017

Porque Bolsonaro e Trump não assistiriam a Mulher-Maravilha


Cena do filme Mulher-Maravilha


Qualquer defeito que eu inventasse para o filme da Mulher-Maravilha não causaria um arranhão em seus efeitos.

Um filme superior aos mais recentes produzidos pela Marvel Comics, rompendo com a aparente sina da DC Comics de gerar adaptações cinematográficas com roteiro enfadonho, com exceção da trilogia encabeçada por Batman, o Cavaleiro das Trevas, e da leitura feita para o Homem-Morcego por Tim Burton.

A atriz Gal Gadot foi esculpida para o papel, conseguindo equiparar-se a Lynda Carter (que imortalizou a Mulher-Maravilha no seriado de TV do final da década de 1970) no que diz respeito ao potencial de traduzir o arquétipo. O quê de latinidade da atriz israelense coopera para associar à personagem a fisionomia dos países periféricos.

A própria Lynda Carter, apesar de criticar os tons fechados da nova versão do uniforme da Mulher-Maravilha, responde às pessoas que criticam a escolha de Gal Gadot, por não ter características arianas: "E quem disse que ela [a Mulher-Maravilha] é branca? Eu sou meio-mexicana. Gal Gadot é israelita. A personagem é uma princesa amazona, não americana. Eles estão tentando colocá-la numa caixa, e ela não está em uma caixa".

A construção da Mulher-Maravilha equilibra os apelos de dois modelos de super-herói: um onde se combinam a resiliência e a grandiosidade (física e ética) de um épico revisitado pelo idealismo romântico; o outro apelo é o da humanização do super-herói, expondo-se suas inseguranças, vaidade e egoísmo.

Se bem que este segundo apelo aparece em doses homeopáticas em comparação com a leitura que vem sendo dada à personagem, nos quadrinhos, onde a doçura e ingenuidade tradicionais da Mulher-Maravilha cedem espaço a uma brutalidade e calculismo à moda de Batman.

Na minha opinião, a origem da personagem poderia ter permanecido como na leitura dada após a saga Crise nas Infinitas Terras, onde Diana é encarnação de uma das almas de crianças frutos de violência sexual contra mulheres.

Também acho que deveria ter sido preservada a versão dos quadrinhos para a explicação dos poderes da personagem.

O desfecho concebido, nas HQs, por Marv Wolfman e George Perez para o duelo entre a Mulher-Maravilha e o deus da guerra, Ares, é mais interessante por retirar o deus da zona de conforto da divindade, indo buscar nele sua porção demasiada humana. Porém, a solução da película  também tem qualidade.

O choque/encantamento cultural vivenciado por Diana ao entrar em contato com o “mundo dos homens” é instigante. E a inserção da personagem no contexto da II Guerra Mundial ultrapassou as expectativas do meu sonho de criança de ver as HQs em “carne e osso”. 

Gal Gadot e Lynda Carter (da esquerda para a direita)
Fonte da imagem: Cinema News

Os mais exigentes e que foram cativados pelo realismo cru do quadrinho Mulher-Maravilha: Espírito da Verdade, podem achar o filme ingênuo. Contudo, tanto a ingenuidade quanto o realismo têm maneiras peculiares de caminhar na corda bamba entre encantamento e desilusão.

O melhor do filme é sermos cúmplices de como a Mulher-Maravilha se esforça para entender a tragicomédia humana, deparando-se com os dilemas do livre-arbítrio e com a ligeira e frequente oscilação entre altruísmo e egoísmo extremos no caráter humano.

Donald Trump e jair Bolsonaro se remexeriam nos seus túmulos/poltronas assistindo ao filme, que já teve o aval de boa parte da ala feminista.

Os cenários e efeitos especiais, super-fantásticos amigos, tornam-se menores diante do efeito-humanidade da história.

31 de maio de 2017

Terror crítico no filme Corra! (Get Out!): a facies hipocratica da tolerância

Cartaz do filme Corra! (Get Out!)


Quem disse que filme de terror não pode trazer crítica social em seu DNA?

A cada cena de Get Out! (que, no Brasil, ganhou o título de Corra!), o que mais me assustava eram as correlações que fiz com um depoimento da atriz Thaís Araújo sobre a relação entre racismo e tolerância.

O filme de Jordan Peele tem feito sucesso pelo mundo como thriller de terror sem apelar para o sobrenatural, de suspense parapsicológico e mistério.

Mas, não considero que o gênero do filme seja nenhum dos mencionados no parágrafo anterior. O terror, o mistério e o suspense são, na verdade, metáforas do verdadeiro tema do filme: o mito da tolerância.

Só pra não deixar o leitor voando, lá vai uma sinopse: Chris, muito bem interpretado por Daniel Kaluuya (de Black Mirror) resolve passar o fim de semana na casa dos pais de sua namorada Rose, papel vivido pela atriz Allison Williams.

Ao chegar lá, depara-se com uma família a princípio receptiva. Porém, o apurado olhar fotográfico de Chris começa a detectar estranhas coincidências. Os poucos negros da região apresentem sinais sorumbáticos que tentam conviver com sinais artificiais de tranquilidade e alegria.

O riso dos negros da localidade aproxima-se do que, no jargão médico, é chamado de facies hipocratica, caracterizada por olhos fundos, parados e inexpressivos presentes em casos nos quais a pessoa enfrenta uma grave doença.

Chris começa, então, a perceber que aquilo não se trata de mera casualidade e que ele próprio pode se tornar vítima.

O título original (Get out!) é uma ironia. Isso porque o desejo de uma elite branca de que a negritude seja banida é ironicamente associado ao desejo de se tornar o negro: parcialmente.

Retomando a questão do mito da tolerância, que atua como paisagem crítica da película, o modo como este mito é apresentado é que é a sacada da história.

Os negros não são intolerados. Ao contrário são, de uma forma deturpada e asquerosa, tolerados. O lado falso da tolerância é expresso pelas técnicas empregadas pelos brancos para estreitar o espaço social e psíquico em que os negros podem existir.

O existir tolerado é aquele em que o ser humano subjugado só pode se mover e sentir dentro de limites estreitos, de uma jaula que, no filme, assume a pior forma de prisão, aquela que o pensador Peter Sloterdijc denomina “gaiola de vento”, uma alusão às prisões caiadas de ilusória liberdade.

O que o filme Corra! faz é dar tons hiperbólicos ao que acontece na sociedade atual, onde o fetiche da tolerância esconde um jogo sádico. Assim, os negros, os gays, as mulheres, e outros grupos atingidos pela discriminação, sentem-se coagidos a entrar no jogo da pseudo-aceitação.

O gay/negro/mulher é tolerado, desde que respeite os limites de existência subliminarmente impostos pelos donos da situação.

E assim espera-se dos discriminados que, no mínimo, sorriam e sintam-se gratos enquanto ouvem os discriminadores assumirem palavras e gestos onde a discriminação faz um contorno  no cabo das tormentas para encontrar um outro modo de chegar às Índias, isto é, ao coração da pessoa discriminada.

Essa expressão perversa do mito da tolerância atua como se discriminadores (ou a parcela discriminadora de cada um de nós) erguessem manequins invisíveis e os incendiassem com tochas de insulto e violência, dizendo à pessoa que se quer discriminar: “Estou insultando um ser invisível, que, por mera coincidência, poderia ser você, mas não é... Portanto, alegre-se!”

Em Corra!, o preconceito não existe. Porque um grupo de sádicos desenvolveu técnicas para estreitar o âmbito em que os negros podem existir e envernizou esta gaiola de ventos com água oriunda de lavagem cerebral e de lágrimas ao avesso, disfarçadas de sorriso e paz cemiterial.

Quando o terror, o suspense e o mistério morrem é que o filme se torna mais aterrorizante e tenso.

Filme incrível e com grandes atuações de Betty Gabriel, Catherine Keener, Keith Stanfield e Bradley Whitford. 


22 de maio de 2017

Coisas e palavras que (não) são de amigos

Borboletário
Rogerio Cavalheiro/Futura Press/Folhapress


PS.: Conversando com uma amiga, ela me disse que pessoas que tinham a vida organizada não viveriam grandes amores porque não se pode ter tudo...

Como vidente, ela é uma excelente fotógrafa...

Outro dia, meu grande amor (amigo), depois de anos ouvindo minha poesia ao pé do zap, perguntou quando eu ia desistir de dizer coisas que não são de amigos como "Eu te amo"...
فارسی

Coisas que são ou não são de amigos variam histórica e geograficamente

Entre os persas, amigos se beijam no rosto e andam de mãos dadas

Na Antártica, amigos dormem abraçados pra gerar calor humano
E enfrentar o zero absoluto

Na Israel salomônica, amigo, irmão e amado eram sinônimos
Não fazia mal amigos se acharem lindos do início até o recomeço
Dizer Eu te amo era uma forma de fazer as pazes
Entre o Adeus e o Até logo
Entre as reticências e o ponto final

Em B612, amigos ajudam o outro a virar rosas e depois os colocam dentro de redomas

E, no planeta-poesia, a amizade-amor é indomável, instavelmente equilibrada, porém harmônica, inafeita a batalhas

Em qualquer lugar ou tempo, amigos, de quando em quando, mentem um pro outro
Porque às vezes é dita tanta verdade que nem a nudez consegue nos vestir

Mas, só com um brasileiro tive vontade de fazer amizade, amor e sexo também
Embora tenha lhe dito o inexato contrário

Espero que ele revogue a medida provisória onde finge decretar
Que eu devo desistir pra sempre

Só ele topou ficar segurando minha mão enquanto via coisas onde elas não existiam
E imaginava coisas que nunca iriam acontecer


Não sei mais dizer se isso é coisa de amigo, amante ou poeta

[Esse texto tem 1% de chance de acertar o alvo. Tomara que ele não esteja usando filtro solar]


PS.:

No princípio, os poemas eram pra alguém, assinados por pseudônimos
Em seguida, continuaram assinados por pseudônimos e eram pra ninguém em especial
Só depois de 2015, a poesia foi pra você assinada por mim.
Talvez isso tenha algum significado, meu amigo (amor).

16 de maio de 2017

Canção do retorno


The Fisher King
Eddi van W. via Visualhunt.com / CC BY-ND



Queria que a princesa Isabel assinasse a Lei Áurea pra o meu ventre
Queria ter escrito o Cântico dos Cânticos pra quem amo
[Mas não seria justo com o rei Salomão]
E que ele pudesse achá-lo entre as mechas de seus cabelos
Que acendem meu tato
Assim como o rosto dele acende meu olhar
A sua presença minha alma
E a sua distância mantém aceso meu sétimo sentido
Minha esperança
Chamada de teimosia nas horas vagas

Você vai retornar
E a canção de retorno vai ser uma música
Tocada na clave de sol
E, se você quiser, os intervalos dela
Serão acompanhados pela notas de minhas visitas

Me ajuda a ter motivo pra continuar acendendo minha poesia

Hegel estava certo:
A poesia assim como o amor é inexprimível
E o poema, bem como as palavras,
São acidentes de percurso,
Tentativas desastradas de captar as pegadas do indizível

Eu sempre te amei, vida
Te conhecer foi a ressurreição que faltava
Estou mais do que feliz com tua felicidade
Embora o fato de ela significar tua decolagem
Dá um frio no meu ventre preso

Não foi Platão quem disse que você me ama
Você é o primeiro que disse que me amava
Com os silêncios, as pausas e as hesitações
Mas, o que seria da música e do amor sem elas?

Não quero perder isso de jeito nenhum
Vlw por tudo
Vlw tudo

Vem comigo pra que eu não sofra
Vou contigo pra você não chorar
O amor real: se Platão o conhecesse,
A história da Filosofia seria outra

Você atirou uma flecha na maçã que estava na minha cabeça
E, desde então, meu zap toca uma música exclusiva pra ti
Seja pato ou labrador, você é um ser humano lindo
Meu aperto de mão mais beijo
Meu beijo mais abraço
Meu abraço mais sexo
Meu sexo mais plenitude
São teus

Sou teu brother in arms
Mas quero ser também teu lover in arms
Cada vez que nos casarmos, tocará aquela música de saxofone que você gosta
E eu tb

Não sei me despedir
Tampouco terminar este poema

Vou te imitar e deixar uma ...

Por que o discurso de Diogo Mainardi escolheu mandar Reinaldo Azevedo ir dar a bunda?

Fonte da imagem: Jornal O Tempo


O jornalista Diogo Mainardi fechou um debate de ideias com o jornalista Reinaldo Azevedo, sobre a conversa entre o ex-presidente Lula e o juiz Sérgio Moro, com o imperativo: #VaiDarABundaReinaldo.

Por que o imperativo “Vai dar a bunda” é considerado algo de tanta a força a ponto de ser eleito “chave-de-ouro” de um debate?

Num contexto em que os arquétipos masculino e feminino estão se reescrevendo, a resistência conservadora se expressa por meio de discursos de poder ancorados num dos conjuntos de imagens mais recorrente ao longo da história: a imagem do passivo que é aniquilado pelo ativo.

Esse repertório imagético atualiza, na forma “dócil” da contemporaneidade, as torturas baseadas no retrato do coito como destruição do aparelho genital de quem ocupa a posição passiva na relação sexual.

Isso fica mais claro quando pensamos no grande número de situações negativas traduzidas por expressões como: “Tomou no cu”, “Está fudido” e “Arrombou-se”. Expressões como estas continuam sendo utilizadas como senha desesperada para definir os redutos onde “homens” e “mulheres” devem circular.

E assim, as mulheres, por mais bem-sucedidas que possam ser em diferentes campos, não serão bem-sucedidas se “lhes faltar levar rola”. De forma semelhante, um homem que faz sexo com outro é considerado homem nas horas úteis de trabalho, desde que traga lucro ao empreendimento. Mas, nos bastidores, é despido de sua hombridade e convertido na figura de “arrombado”.

Aliás, num contexto em que as posições sociais não conseguem mais ser orientadas pelas posições ocupadas na cama, resta ao machismo (seja ele masculino ou feminino, hetero ou homossexual) maquinar a subjugação do “passivo” nos bastidores, por meio das entrelinhas do discurso, das indiretas pontiagudas, aludindo à dolorida retomada de uma história em grande parte baseada em relações de estupro do corpo e da alma.

No artigo Os dispositivos de poder e o corpo em Vigiar e Punir, publicado no número 3 da Revista Aulas (2006/2007), a filósofa Saly da Silva Wellausen  reflete, como denuncia o título do texto, sobre a noção de poder na “obra” de Michel Foucault.

Em um dado momento, Saly sintetiza a relação entre poder e subjugação do passivo: “o poder instala-se na horizontalidade do sujeito individualizado, modelando seu corpo até a passividade”.

No contexto atual, percebe-se um tipo de oscilação entre o que Foucault chama de poder-saber, exercido por meio das técnicas e discursos, e a utilização da violência pura e simples: o poder que para se impor aniquila sua própria “natureza”: a estratégia.

É o caso do linchamento, o terrorismo e outras formas de aniquilação onde a recorrência ao efeito-surpresa eleva à mais alta potência  a afirmação de Foucault, parafraseada pela filósofa: “o poder produz o real antes de reprimir, o verdadeiro antes de ideologizar, abstrair”.

Contudo, o poder-saber segue firme em seu impulso geográfico de mapear os espaços onde as pessoas podem existir e as formas de existir. Essa definição é feita por meio da mobilização de discursos para definir qual o “quadrado” de cada um e se esse quadrado é ou não arrombado.

Uma vez no programa Os Pingos nos ii, de Reinaldo Azevedo, na rádio Jovem Pan, ele tocou um trecho da música Coração Ateu, composta por Sueli Costa, e cantada por Maria Bethânia. E falou que a matéria-prima da reflexão é por excelência o amor. Refletir sobre política é a falta de alternativa diante das mazelas sociais.

Fiquei pensando se ele não teria visitado este blog, tendo em vista que visitei o dele com um comentário (que ele apagou) e deixei lá o endereço do meu blog. #ProntoEspeculei.

12 de maio de 2017

Prece a Nossa Senhora dos Passos


Photo credit: isado via Visual hunt / CC BY-ND


Nossa Senhora dos Passos, te peço
Livra as asas do meu anjo dos tropeços,
Dos calos que não param de falar

Posso emprestar um pouco do meu colo pra ele
Enquanto a Senhora visita a hora do Ângelus?

Conta pra ele, Mãe, que o cinema nos espera
Que a estrada nos pede carona
E que os dilemas se tornam leves ao seu lado

Espero que a beleza do meu rosto caiba no seu olhar esta madrugada
E em outras nas quais ele pare de tentar me convencer
A desistir
O orvalho desistiria das folhas por medo do nascer do sol?

Quando não desisto de ti, a dor dói menos
Não desistir, ao contrário do que possa parecer
Me ajuda a não esquecer o  doce ponto
Em que rota e atalho fazem as pazes


Me deixa enxergar tuas pegadas roçando as minhas
No jardim dos descaminhos

11 de maio de 2017

Elvis Presley e o código de insegurança do cartão de descrédito


Elvis
Photo credit: Claudio Arriens via VisualHunt.com / CC BY-NC





Cartão de descrédito ou poesia secreta de Elvis Presley

Chamei pelo seu nome
E tive como resposta um olhar seco
Queixo arrebitado
Ao fundo, um instrumento frio, na clave de Far, exalava uma música hostil perguntando: “O que esse indivíduo acha que pode querer comigo?”

Se minha presença lhe é, de fato, indiferente, a piada fúnebre se repetiu
Se a indiferença é sua máscara de proteção, você finge bem
Porque faz minha esperança latejar de dor e cansaço

Você deve ter feito, enquanto dormia, um curso intensivo de sem-cerimonial
E aprendeu a me desconvidar para todos os feriados prolongados
Prolongando-me feridas

Vou tentar dormir hoje sem me sentir menos importante que o cartão de descrédito
Que você não possui ainda

Hoje seu agradecimento foi estéril, do hálito pra fora

Acompanhe a dançarina
E me deixe voltar sozinho escoltado pelo risco de assalto
Pelo pouco importe-se de desarmamento

Ensaie o ritmo inerte da norma morna,
Da conveniência enganaredentora

Eu te amo.

No fundo, o que eu tenho pra te oferecer?
Além do toque mais suave que a eletricidade já esculpiu
De um abraço mais acolhedor que o retorno ao jardim que teu sonho planta antes de dormir
Do prazer mais intenso que o segredo grafitou na muralha estelar?

Não se preocupe. O dobrar dos meus sinos não se chama deslealdade
Meu amor é puro e intenso o suficiente para trocar os alto-falantes
Pelo teu pé de ouvido
Em tempo: não cobro anuidade
Juros ou sequer Prometos

PS.: Seu machucado me preocupou.

10 de maio de 2017

Receita poética para o MasterChef


Photo credit: rtppt via Visualhunt.com / CC BY-NC-SA


Adicionei um mói de câmera lenta no acelerador da carruagem 
E descasquei os milésimos de segundo até cada um deles se tornar uma noite inteira
Na tua companhia

Polvilhei chuva no asfalto e hipnotizei as ruas
Até seus olhos semicerrarem
E o mundo inteiro se tornar bastidor de nossas carícias

Untei teus lábios com vinho
E pré-aqueci nosso abraço,
Assistindo de mãos dadas ao vento virar filme
E catar nossos segredos

Segurei a vela até ela abrir as asas
E acender nossa embarcação

Quando tomaste, finalmente, iniciativa
Foste fermento que fez meu coração crescer, 
Longe de qualquer corrupção

Meu carinho  confessou ser teu despertador
Capaz de te acordar pra dentro do meu sonho

Dormi nós dois enquanto a chuva imitava a voz do mar
A gosto

Adia o cais e o aeroporto
Não (des)embarque ainda
Não antes do teu abraço me contar
O segredo para abrir o cofre da liberdade

O calor do nosso encontro aguarda um fio de Aceite
Para completar a receita

Ensina meu plano de te beijar
A te pegar de surpresa
E meu cobertor a se tornar tua atmosfera e remanso

Nus, envolvendo-nos enquanto assistimos Netflix
Ou torcemos pelo retorno dos eliminados do MasterChef

7 de maio de 2017

...

Photo credit: Claudia Regina CC via Visualhunt / CC BY-SA



Aorta ou elogio ao inenarrável

Durante um quarto de hora a epifania contou nossa história
A eternidade trocou o dom de durar para sempre
Pela alegria de viajar a sós contigo durante 40 minutos-chuva

Meu sorriso mais libidinoso estava coberto de pureza
E eu querendo que você escrevesse, no meu corpo, uma versão apócrifa do Kamasutra

O mapa Múndi estremeceu de alegria no meu ventre
Quando os hemisférios de nossos lábios se tocaram

Devolve, amor, o outro hemisfério desse beijo
Pra que meu ser seja outra vez sol nascente
No leste,
No oeste,
No viste,
No ouviste
No calaste
Em todos os sentidos,
Em todas as pétalas da rosa-dos-ventos

A horta do meu coração
conheceu o jardineiro mais lindo e

Hoje, a profecia que errava no poema que ganhava um novo verso
Toda vez que alguém o lia
Cumpriu-se

Aquele velho poema fechou suas portas
Mudou-se para este lugar inenarrável
Onde o nome de quem amo coincide com sua presença
Abraçada à minha

Que bom que você esperou por meu segundo abraço
Antes de abrir a porta do carro,
Até o primeiro beijo de amor
Me visitar
[Seu lábios se deixaram roubar]

Foi tudo como sonhei
O antes, o depois
Fui o homem, a mulher, o homo, o hetero, o trans
O corno, a puta, o santo, o devasto
Que sempre sonhei
No instante exato

Todos dizendo Eu te amo
Doce, sem culpa, sem cobrança, sem pressa
Um tesão repleto de letras, ideogramas, braile, hieróglifos
E silêncios
E luz
Como na música que a rádio Recife mandou calar
Naquele instante

Desisti de te pedir em casamento
Prefiro te pedir em liberdade
Até que a sorte nos prepare
Para o que há de vir
Talvez
Por que não?

Não tenho medo, culpa, nem pressa
Estou pendurado no varal da existência
Um sol simples e leve me
Quarando
Minha alma Agrestina
Vê tua alma sertaneja tomando banho de chuva

E perdendo a conta de quantas doses de água ardente tomou

1 de maio de 2017

Bjos de luz, filhas de Frida Kahlo!

É possível ser feminista e cristã ao mesmo tempo? O que leva um discurso evangélico a criar uma associação entre o Demônio, o feminismo e Frida Kahlo? Tentamos refletir sobre o tema, mesmo depois do "trauma" de ter ouvido ontem que quem fez o mestrado em Comunicação não sabe o que é ter feito um mestrado...


Arte: Karla Vidal


Não gosto de analisar o discurso dos outros porque, ao se fazer isso, corre-se o risco de tratar o discurso como sendo o próprio indivíduo, o que não procede porque não há signo ou discurso que consiga dar conta plenamente nem das coisas, nem dos acontecimentos, nem das pessoas.

Nesta perspectiva, a narração é uma tentativa mais ou menos bem-sucedida de correr atrás do tempo perdido e a descrição reflete nosso esforço de passar uma borracha em cima da infidelidade de nossas memórias.

Mas, esse preâmbulo é só pra dar um verniz científico na seguinte frase: “Não dá pra reduzir uma pessoa ao que ela fala ou escreve”.

Outra coisa chata de quem se mete a analisar o outro por meio do discurso dele é a tentação de resumir a análise a comparações com outros discursos e outras pessoas. Nas redes sociais, a exemplo do Facebook, isso já se tornou praticamente uma regra de etiqueta (falta de).

Os facebookianos vão longe em suas comparações, construindo verdadeiras genealogias que trazem numa ponta a pessoa que proferiu um determinado discurso e no início da genealogia figuras míticas ou de cunho religioso, incluindo Deus e o Satanás.

Um exemplo interessante do que estou dizendo é um diálogo, do qual reproduzirei trechos, extraído de um grupo de discussão de uma igreja evangélica. O diálogo é gerado em torno da possibilidade de mulheres assumirem o papel de pastoras nas Igrejas.

Uma das personagens do diálogo (Karla) apoia o pastorado feminino e começa a ser atacada por discordantes. Em um dado momento, uma das discordantes insere o alvo numa formação discursiva feminista, algo como:

- Feminista cristã?, pergunta a discordante sobre o pastorado feminino.
-Sim, com total equivalência, responde Karla .

A partir daí, os discordantes tentam construir a tese de que estabelecer uma relação entre os discursos feminista e cristão é um contrassenso e apelam para comparações:

- [Feminista cristã] É tipo judeu nazista ou negro racista.

Depois disso, começa a ser desfiado um rosário de insultos, mencionando que uma mulher que se denomina feminista cristã nunca abriu uma bíblia na vida e deve se arrepender de seus pecados e entregar todo o coração a Cristo.

Porém, o trecho mais interessante do diálogo é o seguinte:



O personagem Gabriel, com base na ideia de que existe uma equivalência entre pessoa e discurso, erige uma Formação Discursiva ilustrada pela ideia que ele possui a respeito de Frida Kahlo e insere Frida numa genealogia à qual pertencem as feministas, que ele considera um mal a ser combatido. 

Mesmo que não tenha sido intenção dele, sua estratégia discursivo-genealógica nos leva a supor que a árvore genealógica de Frida Kahlo e, portanto, das feministas, tem como ancestrais versões da mulher associadas ao Mal e, em última instância, ao pecado e ao demônio.

Essa estratégia discursiva, tão comum atualmente nas redes sociais, esforça-se por apagar a história das pessoas, seus sofrimentos, contradições, mas também prodígios e resplendor, reduzindo-as a um bloco discursivo que, muitas vezes, não tem sequer relação com o que estas pessoas viveram.

E, quando se anula a existência de uma pessoa, projetando-se nela formações discursivas, no mais das vezes cristalizadas e irrefletidas, abre-se caminho para a intolerância e a exclusão.

Os discursos de ódio, nas redes sociais, vêm dessa tentativa de converter a  riqueza da complexidade e da contradição humanas em avatares esculpidos a partir de retalhos de preconcepções selvagens.



Esta postagem foi escrita em homenagem ao aniversário de Ana Carolina Morais, que discorda de mim há décadas, ajudando-nos a manter uma amizade sólida como são as águas vivas do Espírito.

Também homenageia Karla Sabryna, feminista, cristã  e Karla Vidal, ambas filhas de Frida Kahlo.


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