15 de janeiro de 2018

Quando tatuei cranberries invisíveis no peito: uma carta a Dolores O'Riordan


Foto: Independent.ie


Meu coração não é fácil de partir. Até porque ele nunca avisa quando vai chegar

Semana passada um amigo partiu meu coração. Queria que, gravando uma tatuagem em algum lugar do meu corpo ou fazendo um trocadilho ou quem sabe sendo uma flor de mandacaru no deserto do sarcasmo, eu conseguisse fazer a tristeza ganhar o páreo e me deixar pra trás

Mas, o tempo não quis me contar o segredo da pomada que usa pra aliviar a dor da decepção quando tatuada na alma

E, como tristeza poupa é bagagem, soube no Plantão da Veja (que, graças a Deus, não tem música como o plantão da Globo), que Dolores O’Riordan, vocalista do Cranberries, faleceu subitamente ainda agora

Você que já se perdeu no desemprego, que teve um(a) chefe que faz de tudo pra você “assumir” a homossexualidade (como se isso fosse um crime), que teve um Eu te amo devolvido porque os Correios fingiram não ter encontrado sua residência, que pensou nas crianças mudas e telepáticas...
Você que se sentiu inexato em algum instante

Em algum desses momentos, o lamento irlandês dos vocais do Cranberries brotou na sua sala de “Deixa Estar”

Uma asa branca traduziu voo e pousou nos galhos de um acorde de gaita de fole para tentar explicar que foi dolorido saber da notícia de que a última gravação de O’Riordan será uma sonata de agudos silêncios às margens do rio Estige

Talvez Psiquê, que adora um desafio, consiga me trazer um autógrafo de Dolores, a mim que desisti de pedir autógrafos quando comecei a calar...

Quem se acha no direito de dizer que o outro não tem vida devia tomar vergonha na cara e ouvir uma maratona de Cranberries e se deixar tomar pela graça

Sò sei dizer que quando Dolores O'Riordan esteve frente a frente com a esfinge, ela disse: Pega teu violão e canta pra que eu te decifre

Dedico esse texto a uma pessoa de quem gosto muito imensamente e que adora responder meus zaps com kkk.

Ao aniversário de Iara Lima.


1 de janeiro de 2018

O que 2018 pede ao coração de Pégasus


Milan, Pegasus, Gallery, Statue, Vittorio Emanuele Ii
Photo on VisualHunt.com


2017 pediu-me um grande amor
Acho que o primeiro passo foi dado
Porque consegui ser o grande amor de mim mesmo

E o primeiro sussurro de 2018 me pede não tanto um grande amor
Mas um amor que se perceba estrela:
Grande como o sol, no centro do sistema
Pequeno como um grão de fóton nas mãos de uma galáxia

2017 pediu que minhas asas de cera
Suportassem assédios e úlceras
E engravidou de kairós este coração caruaruense de Ícaro
Que, em 2018, parirá um promissor Seguir em Frente

O novo amor de 2017, dessa vez, veio a meu favor
Ajudando minha telecinese a fuzilar as flechas de Guilherme Tell
O novo me disse não
Mas, dessa vez eu não me disse Não: e isso é bastante importante

O meu valor está, a passos largos,
Deixando de se ajoelhar diante de línguas ferinas
E de olhares que fingem ver o mundo com clareza
Mas são janelas com passagem só de ida para o umbigo

Acredite em mim, 2018
Porque o amor que sinto pela vida
Tornou-me capaz de desatar o nó de pequenos “impossíveis”
Minha fé não moveu montanhas,
Mas, as montanhas estiraram o pescoço
Para enxergar como funcionava minha fé

2018 pede que haja mais mechas de vento nos meus cabelos
E para que o Cântico dos Cânticos
Toque na vitrola das profecias
Que me lembrarão como é o rosto do meu novo amor (novo de novo)
E como é o coração dos velhos amigos
Mesmo quando eles estiverem disfarçados de desconhecidos

Os cabelos brancos de um eu que me acena do novo começo da jornada
Chegaram pra confirmar que 2018 é um ano de amizades
Que não terão mais vergonha de dizer Eu te amo
E de amores que descobrirão a bênção de se abraçarem até germinar
O límpido Sou Seu Amigo

2018 exige que os que foram feitos pra se amar se encontrem e se reconheçam
E os que foram feitos para ser amigos se reencontrem e não se desconheçam

2018 chega ninando uma onda de paz, respeito e gentileza
Ele não é político. É arqueólogo-mergulhador, que não se contenta em ser superficial
Não medirá esforços pra achar o que existe de belo, bom e justo na diversidade
Não se contentará em procurar alegria no falar da vida alheia

2018 convida os incompetentes a deixar de mangar dos detalhes dos outros que fazem cócegas em sua cegueira
E, se eles não quiserem atender este convite, permanecerão dançando sozinhos, cercados de ventríloquos que fingem ser adoradores

2018, prometo que minha identidade continuará sendo meu nome
E não o que faço embaixo do edredon

Prometo que a criança que se perdeu em Maragogi quando tinha 4 anos,
Será encontrada por seu futur’amor sem cobrança de juros

Prometo que não desistirei de ser cavalheiro (por mais hercúleo que seja esse trabalho),
Como me pediu uma familiar desconhecida de 70 anos na praça de alimentação lotada do shopping

Prometo que meu despudor continuará não devendo satisfação a nenhum cargo comissionado
Prometo que não me tornarei vingativo, mas não deixarei de ser reativo
E que tentarei compreender as razões de Ben Solo

Posso até perder o sabre, mas saiba que não jogarei fora o sol da minha luz
Esse tipo de força já foi libertada das correntes da promessa há muitos oceanos


2018, o que você não me pede sonhando, que eu não te diga: Bem-vindo!

26 de dezembro de 2017

Cartão de Natal de um poeta

Foto: Karla Vidal

Por gentileza, desconsiderem a postagem anterior


Cartão de Natal

Metade do que escrevo acredita que deve se calar
Metade acredita que deve gritar só pra uma pessoa ouvir
E metade decide se entregar por inteiro
Até que as entrelinhas façam chegar a ti um carro-pipa, que dê carona às asas do teu sonho

Escrever não consegue apagar o que digo em silêncio
E calar não retrocede o que escrevi

Queria ter o poder de fazer com que meu Feliz Natal
Tivesse a imagem acústica de um Eu quero ser teu (ím)par

Mas, a imagem do que sinto é muda
Quer germinar, mas tem receio de que você deixe de estar presente
Quando me ler

A companhia do outro é um livro que abrimos
Numa página em branco, pronta para ser reescrita

Tem uma pessoa que eu gostaria que me lesse
Com diferentes línguas
E tateasse meus gestos
Até enxergar o que sinto,
E que é ofuscante de tão sutil

Porque desde que o conheci
Todo dia tem sido Ano Novo
E a alegria, a despeito da regra ortográfica,

Tem sido acentuada por sua presença

25 de dezembro de 2017

Feliz Natal a Anitta, Sarah Sheeva, Maria Amazonas e demais terrestres de boa-vontade


 Foto: Instagram / Reprodução


Não sou uma princesa formada no curso por correspondência de Sheeva, mas
Peço a Papai Noel que tenha o direito de permanecer sem ser esganada,
Por não ser exclusiva, por querer deixar de pertencer a um só homem

Cristo, obrigado por aceitar dividir sua falta de lugar no mundo com Kuan Yin
Quem acredita na misericórdia é capaz de milagres, mas
Nunca encontra lugar na hospedaria

Espero que os pastores me deixem entregar a Jesus os presentes que trouxe:
Couro, falta de senso e birra, mas
Quebrando essa fina camada de tensão superficial,
Meu coração te oferece sede de justiça, paz inquieta e doçura desértica

Mesmo estando do lado de fora da festa,
Maria colocou o Recém-nascido pra dormir no meu coração
Ele não quis saber de presentes, nem de passados
Entregou-me o esconderijo de uma estrela
E fez de mim futuro, perspectiva

O nojo e o medo fugiram quando Ele chorou pela primeira vez
Fazendo o mundo enxergar o quão mentirosa é a guerra

Isaías me contou que Ele não julga pela aparência,
seja a de princesa ou a de malandra
E que, graças a Deus, não precisa do aval de nenhum Supremo Tribunal

Nenhuma pós-verdade resiste ao brilho do olhar dessa Criança
Que nasceu com a ressurreição tatuada na pupila. 

Nesse Natal, o sol da dignidade, malandramente, deu à luz a mim
E passei a ver coisas onde não havia...
Não havia mais muro, nem lamentação, nem botão prestes a fazer brotar
Rosas nucleares de Pyongyang

Não sou político. Não engulo meus nãos pra angariar eleitores
Ou fortalecer base partidária alguma
Não transformo o Obrigado numa forma velada de dizer: “Fique tranquilo que nunca vou te amar”

Meu sorriso não é brinde de rifa
E, na hora de brindar, meu amor secreto criou o malte mais puro
E depois jogou fora a chave da receita 

Ano que vem, minha árvore de Natal vai ter mais “nãos” enfeitando-a, se Deus quiser,
E ele há de meus nãos querer
Porque antes nãos onde o amor ardente aprende a cantar
Do que Obrigados que se sentem obrigados a mandar cartões de Natal
Com fórmulas vãs de cortesia feitas por trabalhadores escravos
Em algum lugar feito de tempo perdido

Menino Jesus, se eu devo continuar acreditando no amor,
Manda-me um sinal
Porque, de vez em quando,
Tenho vontade de ficar sério pra sempre

O amor acaba comigo,
Mas, antes isso do que achar que a carona

É mais importante do que a companhia do ser humano

17 de dezembro de 2017

Doação ou financiamento coletivo? Os rumos da solidariedade da classe média


Foto: Cláudio Eufrausino.


O gesto de doar uma roupa, um brinquedo usado, algum tipo de alimento poderia ser, antropologicamente, explicado como uma forma de aplacar o sentimento de culpa da classe média que, no Brasil, é classe média baixa: situada numa espécie de ilha que ocupa o centro do abismo da desigualdade social, cujos extremos são ocupados por quem está abaixo da linha da miséria e por quem traz o luxo amarrado aos calcanhares.

A classe média costuma encarar a doação como forma de se livrar do que não serve. A bola doada é murcha, o tênis furado, a roupa rasgada, a boneca descabelada. E nisso não deixa de haver uma válvula de escape para a frustração ocasionada pelo desejo de pertencer à elite, desapontado pela realidade cotidiana, que flerta com a pobreza.

Mas, felizmente, esse estigma está sendo abrandado pelo sopro de um futuro, onde doar significa mais a subversão do que a reafirmação das hierarquias.

Mesmo em tempos de crise, as pessoas de classe média baixa têm feito do exercício de doar uma forma de construir istmos que abram caminho pra elas deixarem as ilhas flutuantes de inércia, que pairam sobre o abismo da desigualdade extremada.

Infelizmente, a classe média também tem o hábito de construir istmos que a comunicam com as elites. Normalmente, o cimento dessa construção são juros do cartão de (des)crédito e no cheque especial calçados em promessas do tipo: “Prometo não me iludir que sou rico”.

O que importa mesmo nisso tudo é que, a despeito do recrudescimento de preconceitos e da onda reacionária que assola o País, a empatia está crescendo entre os brasileiros. Com isso, as doações estão se transformando: deixando de ser compostas por aquilo que “não serve” para se tornar o investimento em algo que toma o lugar do supérfluo nas vidas de quem tem condição de vida melhor.
Aliás, tenho fé que, num futuro não tão distante, o termo doação perderá a conotação improdutiva de “pena” e ganhará o sentido de solidariedade produtiva que está presente no termo “crowdfunding”.

Neste sentido, as redes sociais têm sido importantes aliadas de uma redistribuição de renda que não espera pela boa-vontade de quem pertence a elite, mas cujo coração mora abaixo da linha da miséria.

A doação, em breve, creio eu, ganhará o sentido de financiamento coletivo, mostrando que o Brasil, apesar do fantasma do “jeitinho brasileiro”, é criativo e generoso o suficiente para promover a distribuição de renda sem depender da votação do Congresso Nacional ou da sanção de qualquer usurpador.
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